Empreendedorismo que transforma o mundo. Há pouco mais de dois anos, o Café Abraço busca valorizar o trabalho dos pequenos cafeicultores do Sul de Minas e compartilhar suas histórias para quem compra e consome o café. A marca adquire cafés de produtores da agricultura familiar que possuem manejos sustentáveis de suas lavouras, garante o pagamento de preço justo aos pequenos cafeicultores e fomenta a agricultura certificada por Fair Trade, isto é, os orgânicos e o movimento da agroecologia. Nas embalagens, estão estampadas fotos e histórias de cada uma das famílias por trás daqueles grãos. Um negócio que tem em seu DNA a geração de valor compartilhado e a sustentabilidade.

Conversamos com Débora Rabelo, fundadora do Café Abraço, sobre empreendedorismo sustentável e como o negócio realiza não só seu propósito pessoal de vida, mas também os de muitos outros envolvidos na produção do café. Confira!

  Débora Rabelo

  Fundadora Café Abraço

 

1 – O Café Abraço tem uma história muito interessante. Como o negócio começou?

A ideia do Café Abraço surgiu em 2010, quando eu trabalhava, coincidentemente, no Sebrae, na área de Mercado e Relações Internacionais. Nesse mesmo ano, comecei a fazer um trabalho em propriedades da região da Zona da Mata de Minas e, um dia, fiquei muito tocada pelas histórias que ouvi em uma reunião com produtores bem pequenos da região, em que eles compartilharam seus desafios. Saí visivelmente emocionada dessa reunião. Fiquei pensando: “Poxa vida, o que eu posso fazer? Não acho que o que eu faço hoje tem uma ação efetiva na vida dessas pessoas”. Eu senti que eu deveria realizar algo a mais, ter uma atuação mais consciente no mundo.

Em 2011, conheci um francês que mora em Nova York, trabalha com café, de quem me tornei amigo, que foi muito importante, pois ele me fez muitas perguntas que me ajudaram a refletir sobre o que eu queria para o meu caminho. Nesse mesmo ano, passei cerca de quatro meses trabalhando com ele em uma cafeteria em Nova York. Quando voltei para o Brasil, já vim sabendo que meu sonho era trabalhar mostrando a importância da cafeicultura e da agricultura familiar e, de alguma forma, ajudar na melhor remuneração dessas pessoas. Ainda atuei em algumas instituições mais corporativas, esperando a hora certa de fazer meu sonho se realizar, já que eu precisava de alguns parceiros. Inicialmente, minha ideia era montar uma cafeteria, contando a história dos produtores, falando de produção sustentável e comércio justo. Mas é muito caro montar uma cafeteria dessa forma. Nesse meio tempo, comecei a trabalhar com o Gustavo, meu atual sócio, escrevendo cases sobre negócios com propósito. Foi quando ele ouviu minha história com o café, que tinha muito a ver com o que ele acredita também, e fomos conversando, até que chegamos à conclusão de que o ideal era começar vendendo pacotes de café. E esses pacotes deveriam expressar o máximo possível o quão especial eles eram. Não só do ponto de vista de protocolo técnico, de avaliação sensorial, mas também em relação à forma especial como eles eram produzidos e o quão especiais são esses agricultores. O ano de 2016 foi de planejamento, elaboração do modelo de negócio; em 2017, lançamos a marca.

 

2 – Então o Café surgiu como uma forma de realizar um propósito pessoal, bem como o de muitas outras pessoas…

O pequeno produtor não tem como transformar o café que ele produz, verde, em um pacotinho de café torrado e moído. Às vezes isso é feito pelas cooperativas, que ajudam muito os produtores. Falando especificamente sobre a cooperativa com a qual nós trabalhamos, ela tem uma relação muito bonita e muito verdadeira com esses produtores de Boa Esperança (MG). Eles dão assistência técnica, o suporte de que o produtor precisa. O que mais me realiza é ver a alegria dessas pessoas quando elas se deparam com o café pronto, em ver seu rosto estampado e sua história sendo contada, de como ele chegou onde chegou, como consegue aquela qualidade no café e o manejo sustentável agroecológico e orgânico. Essas pessoas também fazem uma transformação importante e positiva nesses microecossistemas em que eles vivem e produzem café e outros alimentos. Muitos deles vivem e se alimentam daquilo que eles produzem. Para mim, essa é a maior realização: constatar a alegria dessas pessoas, ver remuneração justa e justiça social, econômica e ambiental sendo feita.

E tudo isso não é feito só pelo Café Abraço, nós somos uma rede. Temos a cooperativa, os produtores e os parceiros na ponta e os que comercializam o café. Somos uma rede que ajuda a transformar uma parte do mundo, aqui em Minas Gerais.

 

 

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2 – Muita gente acredita que vocês produzem o café. Como é, de fato, o modelo de negócios do Café Abraço?

Nós compramos o café verde dos produtores e somos parceiros até mesmo na torrefação. Somos comércio e distribuição. Pode ser que, em algum momento, nós façamos a nossa torrefação? Sim, isso é previsto no nosso plano de negócio. Mas, por enquanto, trabalhamos junto com a torrefação da cooperativa de Boa Esperança, que é uma maneira de incentivar o trabalho deles, de valorizar o que eles fazem. Então compramos o café da cooperativa, fazemos nossas curvas de torra junto deles, no laboratório da cooperativa, e esse café chega em Belo Horizonte, de onde é distribuído.

 

3 – Gerar valor ao longo de toda a rede e da cadeia de produção pode ser muito caro. Como o negócio foi estruturado de forma a se manter sustentável?

O Café Abraço é um negócio que visa ter lucro, claro. Mas, além de ter lucro, pelo negócio que operamos, geramos valor que é compartilhado na cadeia. Eu não compro uma saca de café pelo valor de uma saca de café convencional. Pagamos o valor de fair trade, pois esse é o nosso forte. Tem de ser um negócio viável para o produtor e para nós também. Praticamos o valor de comércio justo internacional aqui dentro do Brasil. Esse é o nosso primeiro corte. Aí, cafés agroecológicos e orgânicos, já têm outro preço que o produtor coloca. E acredito que a gente tem de começar a entender o valor dessas coisas. E nós vendemos por um preço que dá para pagar os produtores, que dá para pagar, de forma justa, os outros parceiros que temos para operar, sejam eles tanto de torrefação, quanto de design, administrativo, financeiro.

O Café Abraço, então, é um negócio que impacta, que trabalha com ganho compartilhado em nossa cadeia de valor. É uma relação econômica justa. Hoje ainda não damos lucro, apenas pagamos as contas. A partir do momento em que começarmos a ter o lucro previsto, temos uma política de retorno desse lucro para o produtor também.

 

4 – Você acredita que é possível que todos os negócios revejam sua forma de atuação para trabalhar dessa forma? O que falta para que todos os negócios atuem de modo justo?

Eu acho que falta intenção. O mundo já está gritando que não é possível mais viver com instituições com o modelo tão arcaico de operação. As pessoas estão ficando doentes, o meio em que a gente vive está superafetado. Todos os negócios podem operar de forma responsável com o meio ambiente, com as pessoas, com as comunidades em que vivemos. E há opções. Tem pessoas que vão abrir um negócio somente para ganhar dinheiro e vão querer fazê-lo a qualquer custo. Aí é uma relação dela com o negócio, ela é que terá de lidar com isso.

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É justo, porém, ter uma casa boa, um lugar para viver, por exemplo. Se os produtores quiserem ter um carro, que tenham um carro. Isso dá para fazer sim, é uma questão de consciência de cada um. Inclusive, os fundos de investimento hoje em dia estão buscando investir em negócios de impacto, que possam gerar lucro, sim, mas fazendo o bem. Então, dá para fazer, dá para mudar. Existe muita empresa se reinventado aí, muita multinacional repensando o negócio. É importante pensarmos nisso. Na minha visão, não dá mais para empreender só para ganhar dinheiro. Mas estamos em um momento em que, daqui 4 a 12 anos, o mundo pode entrar em colapso. É importante que a gente comece a pensar o que fazer nesse momento.

O Café Abraço nasceu por isso, não começamos pensando só no lucro. A ideia surgiu na minha cabeça e no meu coração pelo desejo de valorizar os produtores e a forma como se trabalha no campo. E, aos poucos, o próprio negócio foi entendendo como ia se expressar no mercado. Quem está com a gente hoje faz parte de uma comunidade. Desde o produtor até quem consome o Café Abraço está ajudando a transformar a agricultura, fazendo com que a agricultura mais resiliente e regenerativa se consolide, entendendo que é importante consumir com mais consciência.

E, falando do ponto de vista muito técnico, desde as empresas que investem hoje estão em busca de negócios de impacto, alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, com a Agenda 2030. Isso é primordial, é um fator muito certo atualmente no mundo do dinheiro. O dinheiro vai ser investido em negócios que estão gerando impacto positivo no mundo.

Você se identificou com a trajetória da Débora e do Café Abraço? O primeiro passo para estruturar um negócio de impacto e com propósito é entender a fundo os recursos que você possui em mãos e como cada uma vai fazer parte da estratégia da sua empresa.  Para ajudá-lo nessa tarefa, preparamos um kit especial com seis modelos de canvas, que vão facilitar a visualização do seu negócio.  O material é gratuito! Basta fazer o download e aplicar à sua realidade.

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