Estamos vivendo a era da Economia 4.0, em que o acesso à tecnologia permite o fortalecimento dos setores criativos e a descentralização da capacidade produtiva. Qualquer um é capaz de criar e colocar seu produto no mercado, seja pelo maior acesso à informação, seja pelo acesso às ferramentas de produção. Um dos reflexos disso é a crescimento no número de fablabs e espaços makers em todo o mundo, em laboratórios de fabricação digital em que a experimentação e a prototipagem trabalham lado a lado com o espírito criativo e a colaboração.

O FAZ Makerspace é um desses lugares, o primeiro espaço maker totalmente aberto ao público em Minas Gerais. Em uma casa localizada na região central de Belo Horizonte, impressoras 3D, máquinas de corte a laser, oficina de marcenaria e serralheria, laboratório de eletrônica e outros equipamentos estão disponíveis ao público, normalmente formado por designers, arquitetos, produtores locais, startups e empreendedores em geral. Lá, empresas encontram o ambiente ideal para tomar forma e se desenvolverem.

Para falar sobre o papel desses espaços na cultura empreendedora e especialmente sobre a importância da prototipação para que as ideias saiam do papel e se transformem em negócios, conversamos com Carlos Ribeiro, fundador do FAZ.

 

processo de prototipação

Carlos Ribeiro, fundador do FAZ Makerspace. Crédito: Ana Luiza Albuquerque.

 

1 – Em suas palestras e apresentações, você sempre comenta sobre o poder do fazer para transformar, o que, até mesmo, definiu o conceito do seu negócio, o FAZ. Conte-nos um pouco mais sobre essa sua crença.

Eu acredito que a capacidade de realizar é o que nos diferencia. Somos capazes de interferir no mundo por meio de nossas invenções – são elas que resolvem nossos problemas. Então, devemos ter a capacidade de criar e executar, porque o fazer é o que diferencia efetivamente as pessoas que dão resultado.

Talvez a minha grande restrição ao modelo de empresa tradicional venha justamente por eu ter tido uma experiência empreendedora lá no início da minha atuação profissional, que me fez perceber a diferença entre as pessoas que fazem e as que não fazem nas organizações. Muita gente hoje sobrevive no ambiente corporativo das grandes empresas sem trazer contribuição para os resultados. Isso é muito ruim.

Aliar a capacidade de gestão à de execução talvez seja a maior diferença que as pequenas empresas e as startups podem fazer no mundo atualmente. No aspecto humano, o fazer traz realizações e gera resultado.

 

2 – Já que estamos falando em fazer, você poderia comentar a importância do processo de prototipação para a geração e o amadurecimento das ideias e para a inovação?

As pessoas criativas geralmente acreditam nas próprias ideias. Isso é muito bom, porque gera o ímpeto de empreender, de fazer. Só que a ideia que a gente mentaliza precisa ser provada na realidade. É essa prova que nos mostra uma série de problemas os quais seríamos incapazes de enxergar, até pelo próprio entusiasmo inicial.

Colocar a ideia à prova é necessário para que a gente identifique até que ponto ela é viável e até que ponto terá de amadurecer e ser ajustada.

Quanto mais cedo o processo de prototipagem começa, melhor é o resultado, já que ele permite que uma boa semente cresça no sentido certo. E também propicia que uma ideia, que parecia muito boa, mas no fundo esconde vários problemas, seja eventualmente descartada com maior rapidez. Poucas coisas são mais frustrantes do que ter uma grande ideia e perceber que ela não vai dar certo. Então, até por esse motivo, quanto mais cedo se testa, mais rápida é a correção ou a desistência.

E a única forma de alcançar isso é pelo desenvolvimento de um protótipo, uma vez que ele permite que o criador entenda o que, de fato, ele quer fazer, quais são os impactos no sistema como um todo, as dificuldades, as complexidades e os problemas que devem ser resolvidos. Não dá para realizar esse processo só na cabeça e também não dá para criar um atalho, pulando diretamente para o mercado.

 

3 – Qual a importância da colaboração e do compartilhamento nisso?

Existe um dito que afirma que, se quer ir rápido, você deve ir sozinho. Mas, se quer ir longe, você deve ir junto. A colaboração enriquece demais a quantidade de insights e possíveis soluções. O ambiente colaborativo é aquele em que todo mundo está aprendendo ao mesmo tempo, então você gera potencial de rede, isto é, uma lei exponencial. A quantidade de conexões entre as pessoas é a potência da quantidade de pessoas que a rede tem. Quanto maior a rede, proporcionalmente mais forte ela se torna.

O ambiente colaborativo também tem um detalhe muito interessante: por mais que a gente acredite que a nossa ideia seja única – e ela talvez seja a base ou um elemento estratégico do seu negócio – há inúmeras  colaborações e influências que ela pode sofrer, sem excluir nada daquilo que é exclusivo ou competitivo. Você consegue refinar sua ideia e deixá-la mais eficiente, sem abrir mão da estratégia. Isso é possível dentro de um ambiente colaborativo e é particularmente importante, porque a própria ética maker reflete o respeito pela criação. Se você está em um espaço onde isso é fundamental, a maioria das pessoas é capaz de diferenciar e respeitar o que é único.

Dessa forma, é viável trabalhar em um ambiente colaborativo, colher opiniões, aprender ou ensinar outras pessoas e, ao mesmo tempo, desenvolver coisas únicas e criar soluções que vão ter grande impacto econômico.

 

4 – Qual é o papel que os espaços makers desempenham no fomento do empreendedorismo atualmente, especialmente nos estágio iniciais?

A existência de espaços colaborativos e a economia compartilhada são inegavelmente importantes. Basta observar que, hoje, se eu quisesse começar um pequeno negócio, jamais alugaria uma sala para ficar trabalhando sozinho, olhando para as paredes. As pessoas vêm aprendendo a valorizar a riqueza de  trabalhar em um ambiente com mais gente, de trocar ideias e trazer essas influências para dentro do próprio trabalho.

Os espaços makers funcionam dentro da lógica da economia compartilhada. Você não precisa investir para comprar os próprios equipamentos, pois vai encontrar uma oficina com condições e com funcionários para desenvolver o seu trabalho. Ao mesmo tempo, isso proporciona um ecossistema muito rico, uma comunidade de pessoas com especialidades diferentes que podem  ajudá-lo a acelerar o que quer fazer. Você pode se mostrar útil para aquela comunidade e alavancar o próprio negócio. Eu acredito que é um ambiente propício, onde há uma relação de ganha-ganha. Para quem está começando agora, é também uma forma importante de se expor a mercados diferentes e até de ganhar maturidade, ao conviver com empresas mais avançadas.

Mesmo as empresas grandes, que têm capacidade de investir em laboratório próprio –  com impressoras 3D, máquinas de corte a laser ou eletrônica –, percebem que, se fazem isso debaixo de um guarda-chuva hierárquico do organograma da empresa, elas inibem que outros setores se sintam à vontade para usar aquele espaço. É muito difícil que um espaço corporativo assim, que nasce dentro da empresa, consiga, de fato, promover integração.

 

5 – No FAZ vocês costumam também trabalhar com grandes empresas. Como você percebe que a cultura maker está mudando a maneira como até as organizações mais tradicionais lidam e fazem inovação?

A grande empresa tem, acima de tudo, uma grande capacidade de gestão, por meio de métodos profissionais e da capacidade de implementar processos. Uma vez que estabelece uma meta ou vai lançar um produto, uma empresa grande tem capacidade operacional gigantesca de colocar aquilo no mercado, o que uma startup nem sempre é capaz. A tendência da empresa grande é se exceder naquilo que ela já fez ao invés de procurar a novidade que está surgindo no mercado. A partir do momento em que se aproxima de espaços colaborativos, você quebra um pouco dessa resistência e cria oportunidade de oxigenar a empresa e dar condições mais democráticas de acesso a outros setores. Isso representa certamente uma abertura.

Deu para perceber que o movimento maker e a cultura do faça-você-mesmo estão extrapolando o hobby e provocando grande mudança na mentalidade empreendedora e nos modelos de negócio, não é mesmo? Para entender a fundo o que é movimento maker, seus elementos e sua presença no Brasil, confira o post que fizemos sobre o assunto.

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