As startups e o metaverso, com Leonardo Carvalho

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Como as startups veem o metaverso para o contexto do pequeno negócio?

A mudança do nome do Facebook para Meta faz com que muita gente associe ou mesmo entenda que o metaverso é sinônimo de Facebook. Então, antes de mais nada, Leonardo, eu acredito que seja interessante explicar: o que é o metaverso?

Primeiramente, é importante notar que existem várias definições para o termo “metaverso”. A primeira forma de ver é relativa à maneira como os usuários estão interagindo com o meio digital. Metaverso, porém, é muito mais amplo do que apenas acessar ambientes de realidade virtual e realidade aumentada através de um par de óculos especial, já que interações muito mais simples pelo computador ou pelo celular também seriam suficientemente interações no metaverso. E outro modo de ver é relativo à base tecnológica que a blockchain, tecnologia das criptomoedas, traz em relação à criação de ativos digitais. O que é muito mais abrangente do que o Meta do Facebook.

A base do metaverso é o universo da web 3.0. A internet iniciou com a web 1.0, em que as empresas compartilham alguma informação, e os usuários apenas se liam sobre o assunto. Com a web 2.0, todas as pessoas puderam postar conteúdos, o que propiciou interação bastante significativa, principalmente com as redes sociais. E, com a web 3.0, nasce o conceito de “propriedade digital”.

Trazendo a concepção de metaverso para o universo das criptomoedas, nós temos um ambiente digital público de criação de coisas digitais, que nunca se desliga. Nesse ambiente, as pessoas criam terrenos, espaços, itens, experiências, moedas, abrindo portas para relações comerciais, como compra e venda, troca, aluguéis, entre outras várias relacionadas a esses ativos. Há, portanto, o desenvolvimento de ‘ativos digitais’, também conhecidos como ‘NFTs – Tokens Não Fungíveis’, em um ambiente sem uma governança central ou descentralizada. O que, na minha visão, traz mais segurança aos usuários, uma vez que o Facebook ou outras redes sociais, de um dia para o outro, podem impor alguma barreira ou regras a seus usuários ou até mesmo ser desligadas, como no conhecido caso do Orkut.

Você acha que podemos fazer um paralelo entre a descoberta ou o início do metaverso com o início da internet?

Com certeza, se pensarmos, por exemplo, em número de acessos. Quando a internet surgiu, ainda no âmbito da web 1.0, os acessos eram  restritos, assim como hoje ainda o são no metaverso. É como se estivéssemos na década de 1990 para o que foi a internet – poucas pessoas acessando, alguns exploradores desse mundo pouco conhecido e os primeiros aplicativos surgindo.

Como será para acessar o ambiente do metaverso? Será necessário adquirir algum equipamento ou, com o nosso celular ou computador, conseguiremos participar do metaverso?

Falando sobre acesso, é importante separarmos aquelas duas visões de metaverso em dois grandes blocos. Se estamos comentando sobre experiências de realidade virtual ou realidade aumentada, em que teremos várias experiências digitais em 3D, o dispositivo de óculos de imersão se torna um diferencial para que a pessoa de fato consiga aproveitar toda essa sensação de realidade virtual. É quase uma experiência de conexão física com uma realidade digital, existindo possibilidades e situações que às vezes nem conseguimos imaginar. E certamente isso vai impactar os negócios. Você poderá, por exemplo, simular uma experiência em uma fábrica ou conectar o consumidor com produtos de maneira única e alavancar suas vendas. Nada impede, porém, que experiências um pouco mais simples sejam acessadas por celulares ou por computadores.

Quando estamos nos referindo a esse ambiente de ativos digitais, em que acontecem transações de bens digitais, o acesso será via um aparelho – celular, computador, tablet –, mas será necessário que o usuário tenha uma carteira digital ou “wallet” (carteira em inglês). É um dispositivo digital que você pode instalar no seu computador e que permite a você guardar suas criptomoedas e seus ativos digitais, isto é, os NFTs.

Quais as oportunidades para startups? E para os pequenos negócios?

O metaverso apresenta muitas oportunidades ainda não exploradas  aos empresários, principalmente, com o advento dos NFTs, possibilitando que pessoas de diferentes setores participem dessa economia. Os NFTs podem até se conectar com bens físicos da realidade ou ser ativos 100% digitais. Eu posso transacionar um NFT que signifique parte de um bem físico – como parte de um imóvel – ou posso negociar um terreno em um ambiente 100% digital.

Tal conexão entre ativos físicos e digitais possibilitará o surgimento de novos modelos de negócios, conectados com o universo das criptomoedas. E esses modelos, muitas vezes, permitirão negociações mais diretas e com menos intermediários, abrindo espaço para a criação de outros modelos de negócios.

Na minha visão, uma grande oportunidade é conectar esses ativos do mundo real com os ativos digitais e criar comunidades, explorando um senso de pertencimento e conexão com as marcas, por exemplo, como a Reserva tem feito. Outro ponto seria a customização de itens atrelados a determinadas marcas e comunidades. Do ponto de vista de redes sociais, serão muitas as formas de interação entre marcas e pessoas, ampliando os modos de atuação e conexão para os empresários.

Assim como o metaverso pode dar muito certo, existem riscos em apostar nessa novidade. Quais os principais riscos você consegue enxergar?

Sim, existem riscos financeiros, uma vez que seus itens digitais e criptomoedas têm valor. Se ao fazer uma transferência você acabar errando o destinatário, não tem como reverter a situação. E, assim como no mundo real, existem golpes, e nessa situação você pode perder seus NTFs. A senha da sua carteira digital deve ser 100% sigilosa, porque, se a pessoa tiver acesso à sua senha, ela poderá transferir todos os seus bens. Dessa maneira, você precisa ter bom conhecimento para fazer as transações em segurança e avaliar os riscos.

Como o metaverso vai impactar a internet?

Acredito que o metaverso vá ampliar as possibilidades de experiências e interações – seja nas redes sociais, seja no ambiente de trabalho. É uma internet potencializada. Será possível, por exemplo, realizar reuniões a trabalho no ambiente do metaverso. E, do ponto de vista de criptomoedas, a blockchain adiciona uma camada de ‘confiança’ que remove intermediários nas conexões entre as pessoas ao redor do mundo, possibilitando criativas maneiras de operacionalização de ativos digitais.

Para quem tem interesse em preparar ou mesmo entrar no Metaverso, o que você recomendaria?

O primeiro passo seria baixar uma ‘wallet’ e inserir algumas criptomoedas. Em seguida, estudar o tema; já existe muito material formativo e gratuito disponível. Portanto, pesquise por fontes diversas e confiáveis e absorva bastante conteúdo. É interessante colocar a ‘mão na massa’, realizar algumas transações, começando, claro, com pequenos valores para testar e conhecer.

Recomendo também passear pelo metaverso e, dependendo do setor, se conectar com pessoas que estão interagindo. Assim que possível, testar os óculos de imersão de realidade virtual, experimentar situações e pensar um pouquinho em como isso se conecta com seu trabalho e com seu dia a dia. Pois, só a partir dessa imersão de pessoas com diferentes histórias e diferentes culturas, que cada dia mais novos negócios serão criados.