ESG para pequenos negócios – Entrevista com Augusto Cruz, sócio da AC Consultoria e Treinamento Empresarial

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ESG é um termo usado para se referir às boas práticas ambientais, sociais e de governança dos negócios. Essa sigla, bastante em alta hoje, representa uma série de condutas e boas práticas que as empresas devem seguir para se mostrarem socialmente responsáveis e ganharem competitividade no mercado.

Enquanto o ESG é muito discutido nas grandes empresas, empreendedores de pequenos negócios se perguntam: será que isso é para mim também?

A resposta é sim! ESG para pequenos negócios é uma realidade. Por isso, você pode começar agora a aplicar essa ideia na sua empresa.

A fim de esclarecer como os negócios de menor porte podem aplicar as práticas de ESG, conversamos com Augusto Cruz, sócio da AC Consultoria e Treinamento Empresarial, mestre em Direito, Governança e Políticas Públicas e consultor do Sebrae-BA e do Sebrae-MG.

Se você tivesse que explicar o termo, como definiria ESG?

ESG consiste no conjunto de decisões da alta direção das corporações em adotar boas práticas de governança corporativa e inserir em seu direcionamento estratégico os temas relacionados às mudanças climáticas, ao meio ambiente e à erradicação da pobreza e redução das injustiças sociais.

Diz respeito a fazer o que é certo da forma certa! É ter como propósito construir um mundo melhor para as atuais e as futuras gerações.

ESG é um termo que parece ter surgido para substituir o conceito mais simplificado de “sustentabilidade”. Qual a diferença entre esses dois termos?

Sim, sustentabilidade abrange uma série de dimensões: econômica, social, ambiental, cultural, espacial, territorial, política, psicológica, etc.. Já o ESG, por ser um conceito advindo do mercado financeiro, abrange as questões de governança corporativa, de meio ambiente e sociais.

Por outro lado, em uma análise mais restrita, as agendas de sustentabilidade e de ESG têm o mesmo objetivo: um mundo melhor.

Pode parecer poético falar em fazer um “mundo melhor”. No entanto, diante dos efeitos causados pelo modo de produção e de consumo no clima, no meio ambiente e na desigualdade e injustiças sociais, toda e qualquer ação impactante realizada por empresas e pela sociedade visa a um mundo minimamente mais justo, harmônico e respeitoso com o planeta ou, como disse o Papa Francisco na Encíclica Laudato Sí, com o nosso lar.

Quais são as vantagens/benefícios do ESG para os pequenos negócios?

A adesão a uma agenda de ESG pode se tornar uma oportunidade de empreender novos negócios, haja vista a crescente demanda por serviços e produtos que reduzam ou mitiguem impactos ambientais e sociais. Vejamos alguns exemplos:

O empreendedor pode se tornar consultor ou fornecedor de equipamentos de tecnologia de energia limpa (solar, eólica), que promova melhor aproveitamento de água ou que possibilite seu reuso de água, ou ainda prestar consultoria ou trabalhar com logística reversa ou economia circular, etc.

Quanto ao social, o pequeno negócio que contrata pessoas das comunidades de seu entorno e investe em diversidade e inclusão ganha em inovação, redução do custo com transporte e fideliza a clientela local.

Ao falamos em governança, o primeiro ganho reside na melhoria das disposições do contrato social quanto ao relacionamento entre os sócios, planejamento da sucessão, venda da empresa, dentre outros aspectos raramente tratados nos contratos sociais de pequenos negócios. Ainda em sede de governança, é possível implantar um microssistema de conformidade, com código de conduta, adequação à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e revisão de processos.

E quem não adota essas práticas está correndo algum tipo de risco?

Empresas que não evidenciarem a adoção de boas práticas de governança, meio ambiente e social poderão ficar de fora do mercado. Vale o ditado: “Diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Desta forma, as empresas que compram dos pequenos negócios serão cada vez mais exigentes.

Hoje, para fornecer produtos ou serviços a grandes empresas, é necessário preencher questionários atestando que a empresa não está associada à corrupção e que cumpre a lei. Isso é conformidade e integra a letra “G” do termo “ESG”.

Por outro lado, está surgindo um ativismo socioambiental importante nas grandes empresas. A Renner, por exemplo, pretende zerar as emissões de CO2; para isso, ela precisa que toda sua cadeia de valor também o faça.

As demandas sociais que chegam nas grandes empresas naturalmente chegarão aos pequenos negócios. O ESG chegou para ficar!

É possível pensar em ESG para as diferentes áreas de uma empresa? Você poderia dar alguns exemplos de como as diferentes áreas conseguem adotar essas práticas?

De forma macro, o programa de ESG será transversal a todo o negócio. No entanto, cada área pode ser responsável por um dos pilares ou um subtema, em face das atividades que desempenha.

Por exemplo: a área Administrativa pode ser responsável pela redução do uso de papel (impressão), fazendo isso em parceria com a área de TI, que identifica o sistema mais eficiente de digitalização de documentos.

A área de Produção poderá ser a responsável por cuidar da eficiência energética do negócio. Ao final, no entanto, o ESG estará permeando todo o negócio, ainda que com ações específicas em cada área.

ESG é um conceito que se aplica a todo tipo de negócio? Empresas pequenas podem adotar essa ideia, assim como as grandes?

Sim!

É bom lembrar que os fundos de investimento estão focados em empresas que evidenciem boas práticas em governança corporativa, ambientais e de combate às injustiças sociais. Assim, não há que se falar em porte da empresa.

Por outro lado, as gerações Z e Millennials estão consumindo, investindo e trabalhando para as empresas. Pesquisas apontam que as pessoas dessas gerações preferem empresas que demonstram preocupação com os temas relacionados ao ESG.

Pensando especificamente em pequenos negócios, por onde podemos começar a agir segundo as práticas de ESG?

Sempre pela governança corporativa, isto é, a agenda de ESG precisa advir da vontade dos sócios.

O passo seguinte é eleger os eixos de atuação da empresa em cada um dos pilares do ESG. Uma boa medida é escutar as pessoas que afetam e são afetadas pelo negócio: empregados, clientes e fornecedores. Executar uma pesquisa amostral para identificar a materialidade do negócio, ou seja, qual o impacto que o negócio causa nas pessoas e no meio ambiente, tanto os aspectos positivos como os negativos.

Feito isso, é eleger as prioridades, estabelecer um cronograma de ações, implantar, monitorar, aprimorar, dialogar e apresentar os resultados de forma honesta e transparente.

Quem deve se envolver no processo de conhecer e aplicar ESG em um negócio?

Como disse, deve começar pelos sócios (a alta direção). Como as ações de ESG são multidisciplinares, é importante engajar colaboradores e até mesmo os clientes. Ouvir especialistas nos temas e nos subtemas eleitos pela empresa é muito importante.

Você citaria algumas práticas de ESG que podem ser facilmente adotadas em pequenos negócios?

Alguns exemplos:

No G, implantar um código de conduta, adequar a empresa à Lei Geral de Proteção de Dados, por exemplo. No E, adotar os “5 Rs”: repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar. No S, contratar pessoas das comunidades do entorno, investir em qualificação e engajar nos programas de ESG. Mas atenção: sempre consulte um profissional com reconhecida experiência.

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