Inteligência Artificial: ferramenta para uma gestão mais estratégica – Entrevista com Sérgio Viegas

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Em 1927, o filme Metropolis retratou a sociedade dos anos 2026 e os conflitos que a tecnologia e a luta pelo poder poderiam gerar no mundo do trabalho e nas empresas. O filme, que até hoje influencia a cultura pop no mundo inteiro, foi um dos primeiros a levar a temática da Inteligência Artificial para a sétima arte.

Estamos em 2019 e a realidade é muito diferente das telas de cinema e dos livros de ficção científica. Mas, se você continua achando que Inteligência Artificial ainda está muito distante da sua realidade como empreendedor, está na hora de repensar a forma como tem feito negócio. Inteligência Artificial é mais simples e mais acessível do que a maioria das pessoas acredita e pode fazer grande diferença nos negócios, otimizando custos e maximizando resultados. Para falar sobre o assunto, entrevistamos Sérgio Viegas, fundador da ihealthy e da aion.ia, startup de soluções de inteligência artificial para a área da Saúde e empresa de consultoria em IA, respectivamente. Sérgio foi um dos palestrantes na Feira do Empreendedor 2019, realizada pelo Sebrae em Belo Horizonte, ocasião em que conversamos com ele. Confira a entrevista a seguir!

  Sérgio Viegas

Palestra na Feira do Empreendedor 2019

1 – Sérgio, você poderia nos falar um pouco sobre os impactos da Inteligência Artificial (IA) nos negócios nos dias de hoje e o que já é possível prever em relação ao futuro?

Da Medicina a todas as áreas de negócio, já temos o uso da Inteligência Artificial hoje em dia. Os bots são um exemplo. Imagine as áreas de call center? Os call centers não terão aquele monte de gente ligando, visto que os bots já são capazes de ligar a qualquer hora e fazem isso bem, entendem português e estão ficando cada vez melhores. O impacto atual é principalmente nessas áreas, na fala, na conversa, na parte visual. Hoje é possível, por exemplo, entrar em um shopping, e a cancela abrir sozinha, reconhecer a placa do carro com IA e liberar o acesso e a cobrança no cartão de crédito. Existem muitas coisas que a IA já faz hoje e que não são aplicadas porque as pessoas não sabem como fazer ou por certa resistência.

No futuro, cada vez mais a IA vai fazer coisas que o homem faz, aproximando-se do que o homem faz. Ela não vai substituir o ser humano. O ser humano é mais importante do que o trabalho que a máquina pode fazer, mas essa composição homem mais máquina é o caminho. Na China, os guardas já andam com uma camerazinha nos óculos e sabem quem é você, se você tem uma multa que não pagou, quem é bandido, tudo isso só pelo reconhecimento da imagem. Eles já sabem quem têm de abordar, por conta da Inteligência Artificial. A IA vai nos ajudar também com carros autônomos… No futuro, vai ter menos batida de carro. O mundo automatizado tende a ser mais tranquilo, e a IA tem de atuar como um fator fomentador disso, um facilitador dos negócios. Temos de olhar para o que chamo de ‘a boa Inteligência Artificial’, e não aquela retratada por Hollywood, que vai dominar o mundo e que vai tomar os empregos.

2 – Você acredita que a Inteligência Artificial é para todos os tipos de negócio? Ela é um futuro inevitável para todo empreendedor?

Não. A Inteligência Artificial é pervasiva, ela passa por todos os negócios. Quando você fala em ouvir, falar e ver, qualquer negócio faz um pouco disso. A IA passa por todos os negócios, mas pode ser usada ou não. Teremos áreas com mais resistência como a da Medicina, e áreas com menos resistência como a do comércio. Temos aí o exemplo da Amazon Go, loja que já inovou e funciona sem vendedores.

3 – Em sua palestra, você comentou sobre a importância da coleta de dados. Como saber qual tipo de dado coletar e como os empreendedores podem fazer isso desde já, mesmo sem ainda terem recursos de Inteligência Artificial?

Primeiro é importante saber que se deve coletar tudo. Tudo. Se eu tenho uma lojinha, preciso saber quantas horas são, se choveu ou não choveu, se o cliente saiu, que horas saiu, qual a idade do cliente que saiu, quem são as personas. Toda a informação que qualquer dono de estabelecimento ou negócio puder ter, é importante. Porque talvez ele não tenha o recurso agora, mas daqui a pouco começa a perceber que aquela variável que ninguém achava que era importante está causando, por exemplo, a saída de clientes do seu negócio para o concorrente. Banco de dados hoje é barato. Então, quanto mais a pessoa puder ir coletando informações e guardando, melhor.

Claro que existe um custo para armazenar dados. Se você vai se matricular em uma academia, e eles começam a perguntar muitas informações, você acaba desistindo de entrar na academia, o processo começa a ficar até invasivo. O empresário tem de começar a perceber até que ponto é possível pedir mais dados ou coletar dados no contexto do dia a dia e jogá-los para dentro do sistema.

4 – Um ponto importante é enxergar o investimento em IA como um investimento em performance, certo? E não só um gasto superficial com tecnologia.

Não faz sentido se for IA pela IA, tecnologia pela tecnologia. Voltando ao exemplo do call center, a redução de custos com equipe é gritante. Você vai sair de 500 pessoas no call center para um robô que atende milhares de pessoas com muito mais tranquilidade. Temos de pensar na Inteligência Artificial como redução de custos, sim, e como otimização de processos. Todas as questões de gestão estratégica têm de ser vistas pela abordagem da IA também.

A Inteligência Artificial complementa muita coisa, ajuda a dar velocidade a certos processos. Tem um custo inicial, que pode ser diminuído. O custo das APIs pode ser feito de forma recorrente, aos pouquinhos. Paga-se às vezes até muito pouco para se ter robozinhos funcionando para o seu negócio. A questão é a inteligência do empresário para achar o caminho certo.

5 – Pensando nas funções que, inevitavelmente, serão substituídas, como é possível repensar a capacitação desses profissionais?

Esse é o maior problema e que, na minha opinião, não deve ser pensado sozinho. É uma conversa para se juntar setores público e privado. Hoje temos carências de educação no mundo e no Brasil, principalmente. Eu vou pegar aquele funcionário de chão de fábrica que foi substituído pela IA e colocá-lo para fazer o quê? É necessário ter treinamento! É preciso ter um diferencial nessas capacitações para não perdermos bons profissionais, que fazem coisas legais, mas que são simplesmente substituídos. É preciso pensar tudo isso de forma ampla, com governo, escolas – o próprio papel da escola está sendo questionado! Mas o fato é capacitar as pessoas o máximo.

6 – Quais competências serão mais relevantes nessas capacitações?

Todas as competências relacionadas ao humano não serão substituídas. Criatividade, sensibilidade, conversa entre pessoas, empatia. Não dá para a máquina te entender, perceber que você está com raiva. Todos as matérias mais humanas devem ser colocadas no currículo para todo mundo.

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