Sustentabilidade urbana e inovação – entrevista com Giuliano Bittencourt

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Dentro de um shopping center, no coração de Belo Horizonte,  existe uma área verde com uma enorme estufa agropônica, onde crescem hortaliças orgânicas, onde há espaço de convivência, espaço para cursos e workshops, mercado agroecológico e um restaurante, com ingredientes (claro!) vindos diretamente da horta. Essa é a estrutura da unidade da Be Green em BH, a primeira fazenda urbana da América Latina, que atualmente também tem unidades no Rio de Janeiro e dentro da fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo, considerada a primeira fazenda urbana inserida em um complexo industrial no mundo.

A startup reduz o desperdício de alimentos simplificando a cadeia logística, seguindo o conceito farm to plate (da fazenda para o prato), ao instalar a estrutura de produção em um centro urbano, evitando a baldeação das hortaliças entre centros de distribuição, supermercados e entregadores. Conversamos com Giuliano Bittencourt, CEO e cofundador da fazenda, sobre consumo sustentável e inovação com base no conceito de sustentabilidade urbana. Confira a entrevista a seguir.

A BeGreen é a primeira fazenda urbana da América Latina, ou seja, uma ideia totalmente inovadora por aqui. Quais tendências de consumo e comportamento deram a você e ao Pedro (cofundador) a certeza de que era uma aposta que valia o investimento aqui no Brasil?

Acho que foram duas questões: a tendência e o problema. A tendência é passageira, a necessidade não. O primeiro ponto que identificamos é que quase 70% de tudo o que é produzido no Brasil é desperdiçado. Tomate, rúcula, beterraba, agrião, alface, todos esses produtos perecíveis são desperdiçados na cadeia logística do Brasil. O produtor leva ao entregador, que leva ao Ceasa ou ao Ceagesp, por exemplo, que, por sua vez, distribui para os supermercados e, dos supermercados, para nossas casas. Essas hortaliças têm vida útil bem baixa e, por serem produtos frescos, não podem ser tão transportadas. Nesse sentido, é um desperdício enorme porque a produção está longe do consumo. Em um país em que quase 40 milhões de pessoas tomam apenas uma refeição por dia e que produz 150 vezes mais a quantidade necessária de alimento, esse desperdício não faz sentido algum. Então, foi por um problema que a Be Green surgiu.

Já a tendência, que vem se mostrando cada vez mais presente e já deixou de ser apenas tendência, é a mudança do hábito de consumo das pessoas. Os millennials querem saber de onde vem a comida, estão dispostos a pagar mais por produtos sustentáveis, por produtos saudáveis, por orgânicos, o que não ocorria na geração anterior, a dos baby boomers.

As marcas  presentes no mercado há 30, 40 anos, estão  modificando suas linhas de produto para atender a essas necessidades. Recentemente, as grandes empresas de proteína do Brasil e do mundo começaram a se adaptar aos hambúrgueres veganos.  Exemplo: a Unilever comprou a Mãe Terra porque não tinha um snack saudável e orgânico dentro de sua linha de produtos, e é possível ver redes como Shake Shack, nos Estados Unidos, ou o Madero, no Brasil, surgindo como alternativas de fast food com histórias por trás de seus hambúrgueres, com fazendas que produzem para a própria rede. Isso tudo mostra que, de fato, as pessoas estão se importando mais com aquilo que compram. Não é mais só pelo preço ou pela comodidade. E tudo isso corrobora com o que fazemos na Be Green: nós produzimos e entregamos para o consumidor.

Apesar de comercializarem produtos, vocês também se definem como uma empresa de educação. Como são essas atividades?

Nascemos para ser uma empresa de hortaliças dentro da cidade, reduzindo o desperdício, não utilizando agrotóxico, diminuindo o consumo de água e controlando a produção, de maneira que o metro quadrado seja mais produtivo. Para isso a Be Green nasceu. Mas quando nos instalamos dentro do Boulevard Shopping, em Belo Horizonte, vimos que a demanda das escolas era latente, querendo mostrar a seus alunos como é uma produção de hortaliças. Daí, vimos que tínhamos o DNA de ensinar e que era natural do nosso trabalho conscientizar as pessoas em relação à produção de hortaliças de maneira sustentável. Começamos a receber visitas e hoje, tanto em BH quanto no Rio de Janeiro, oferecemos uma experiência educacional para crianças, além da produção de hortaliças, que continua a ser nosso main business.

Temos todo um percurso educacional, que vai dos 3 aos 18 anos, e cada idade tem um conteúdo programático para estudar dentro da Be Green, além de biólogos e monitores que educam essas crianças. No Rio, também há uma experiência em laboratório.

A inovação está no modelo de negócios, no core business da Be Green. Mas como vocês levam inovação ao dia a dia de gestão e operação da empresa?

Acredito que inovação não é reinventar a roda, mas fazer com que a roda gire mais rápido e sem fricção. Olhamos para os processos antigos e tentamos melhorá-los diariamente, dado o propósito da Be Green. É algo muito mais centrado no que podemos fazer melhor para o meio ambiente e para o mundo do que uma tentativa de reinventar a reutilização de água ou a embalagem, por exemplo. Não. Nossa inovação é sempre no sentido de não impactar mais o meio ambiente.

Vocês têm investido em novas tecnologias?

Nossa tecnologia é interna. Nossas estufas são todas monitoradas: temperatura, umidade, PH, condutividade, luminosidade. Monitoramos e atuamos no ambiente da estufa para que as hortaliças cresçam de forma mais saudável possível. Aí, nesse sentido, temos tecnologia de produção indoor, com LED, rodando dentro de uma unidade nossa na Mercedes Benz. Não é uma tecnologia para vender, mas para uso próprio.

Acreditamos que a tecnologia não é fim, é meio. Nosso fim é ter hortaliças mais sustentáveis, mais saborosas e a experiência educacional totalmente ligada aos novos skills que as escolas estão buscando, que é algo menos expositivo e mais experimentativo.

A ideia da Be Green surgiu depois de uma visita sua à fazenda urbana do MIT, certo? Qual a principal diferença entre o modelo que você viu lá e o que desenvolveram aqui?

O modelo da Be Green é único no mundo. Existem outras fazendas urbanas, mas nenhuma dentro de shopping center e, mais do que isso, nenhuma focada em educar e transmitir sustentabilidade para os consumidores. A maioria das fazendas urbanas fora do Brasil está focada em aumento de produtividade unicamente. Nós, além da preocupação com produtividade, estamos empenhados em nos tornarmos mais sustentáveis todos os dias.

O que você aconselha aos empreendedores que buscam trabalhar com sustentabilidade em grandes centros urbanos?

Eu procuraria entender quais são os problemas reais, mais do que qual é o meu problema ou o seu problema. Por exemplo, aqui em BH estamos convivendo, nos últimos dias, com a questão das enchentes. Isso é um problema real, não um problema que afeta meia dúzia de pessoas, mas uma população inteira. “O que eu posso fazer para solucionar esse problema?”

Mas não gosto muito de dar conselhos; prefiro falar da experiência que eu tenho enquanto empreendedor da Be Green. Acho que vale olhar para a história da Be Green, que nasceu em função do problema de desperdício de alimentos, um problema real e gigante. Não conseguimos endereçar todo o problema, mas uma parte dele. Mas é por aí, ou seja, olhar para o problema, identificá-lo e criar uma solução.

O processo de empreender é desgastante, solitário e que leva tempo, pelo menos de 5 a 7 ou 10 anos, no mínimo. Se você não tem um problema grande o suficiente, se você não se identifica com aquele propósito, é muito fácil se perder no caminho. É importante sempre seguir porque você iniciou algo e trabalhar para resolver o problema de pessoas.

Uma vez estava em uma aula de pós-graduação, eu tinha 22 anos, e o professor de sustentabilidade disse que o negócio sustentável é um negócio perene, build to last, feito para durar, e não para ganhar. Nunca me esqueci disso!

 

Gostou da história de inovação da Be Green? Conheça mais um case de negócio inspirador, lendo a entrevista com Débora Rabelo, fundadora do Café Abraço, negócio de impacto que valoriza o trabalho de pequenos cafeicultores do Sul de Minas por meio do comércio justo e do compartilhamento de suas histórias.