O empreendedorismo pode transformar completamente um país. Estudos econômicos pelo mundo comprovam a ligação entre a criação de empresas e o crescimento rápido, o aumento da quantidade de postos de trabalho e a expansão do PIB.

Para que os avanços ocorram na prática, é necessário que vários agentes, tanto públicos quanto privados, se envolvam na criação do que chamamos de ecossistemas de empreendedorismo. Assim, formam-se redes de colaboração que fomentam a abertura de empresas e o desenvolvimento de características empreendedoras nos cidadãos.

Daniel Isenberg, fundador executivo do Programa de Ecossistemas Empreendedores da Babson College (saiba mais sobre o trabalho de educação empreendedora da instituição aqui), também concorda que os ecossistemas têm muito a contribuir com a economia e o desenvolvimento dos países, como explica no artigo “A grande ideia: como iniciar uma revolução empreendedora” (em livre tradução), publicado na Harvard Business Review, no qual ele cita nove maneiras de criar um desses ecossistemas.

Daniel é professor da Columbia Business School e associado da escola de Governo da Harvard. Também é empreendedor e venture capitalist em Israel. Ele já escreveu para a NPR, a Bloomberg, a Economist, o Quartz e para muitos outros. Neste artigo, vamos decifrar um pouco dos seus ensinamentos. Ao final, você vai conhecer o que ele recomenda ou sugere evitar a fim de criar um ecossistema empreendedor.

Vamos lá?

ecossistema de empreendedorismo

1 – Esqueça o Silicon Valley

O Silicon Valley, ou Vale do Silício, em São Francisco (EUA), é inspiração para ecossistemas de empreendedorismo por todo o mundo. Afinal, o local atraiu empresas dentre as maiores do mundo e foi responsável pela criação de muitas tecnologias. No entanto, Daniel Isenberg explica que é compreensível que o Vale encoraje outras localidades a se tornarem mais empreendedoras. No entanto, não pode ser o único estímulo.

Ele explica que São Francisco se desenvolveu por meio de circunstâncias específicas, como a indústria aeroespacial já existente no local, a cultura aberta à inovação da Califórnia e o apoio da Universidade de Stanford.

Esses fatores, junto de outros, atraíram a atual abundância de talentos e expertise, e o “Valley” aproveitou as oportunidades.

2 – Molde o ecossistema em torno de condições locais

Bom, se o ideal não é se basear no Silicon Valley, para onde líderes governamentais devem olhar a fim de se inspirar a criar o próprio ecossistema? Daniel explica em seu artigo que esta deve ser uma das tarefas mais difíceis. Moldar as ações na dimensão, no estilo e no clima próprios da região não é fácil.

Já falamos por aqui do polo tecnológico de Santa Catarina, que também soube basear-se nos próprios pontos fortes para fomentar a economia e o empreendedorismo. Daniel também cita o exemplo do Chile, que capacitou piscicultores e focou ações de fomento em indústrias ligadas ao setor, buscando colocar o país como um dos maiores exportadores de peixe do mundo.

3 – Engaje o setor privado desde o início

Em qualquer ecossistema de empreendedorismo, o papel do setor privado é essencial. Embora governos tenham responsabilidade, a rede só é completa e alcança sucesso quando empresas da região ajudam a construí-la.

Para conseguir esse apoio, comece com uma conversa sincera. Fale com os representantes e os líderes mais importantes. Busque sugestões para o fomento do empreendedorismo e de políticas que seriam interessantes para a criação do ecossistema. Se a expertise não existe perto de você ainda, procure em outras regiões e países com um contexto parecido.

4 – Favoreça o alto potencial

É comum imaginarmos governos que direcionam a maior parte dos recursos aos empreendedores que mais precisam deles. No entanto, Daniel indica que, por mais que essa escolha também renda bons frutos, ele recomenda que os recursos sejam destinados, primeiramente, aos empreendedores ambiciosos e de alto potencial, focados em soluções de negócio de alto crescimento.

Ainda que 500 empreendedores individuais signifiquem a mesma geração de emprego de uma empresa com 500 funcionários, experts argumentam que, nas grandes organizações, há mais potencial de renda e poder de inspiração para novas startups, além de agregarem reputação ao ecossistema empreendedor.

5 – Conquiste uma grande vitória

Governos podem conquistar uma grande vitória que será a “estrela” do ecossistema, capaz de inspirar e expandir a imaginação de novos empreendedores. Sucessos visíveis ajudam a reduzir a percepção das barreiras para o empreendedorismo – são uma espécie de empurrão, segundo Daniel Isenberg.

Por isso, celebre muito cada vitória do ecossistema de empreendedorismo da sua região. Eventos, prêmios, entrevistas e aparições na mídia: coloque os sucessos em evidência, e eles vão ser intensificados.

Já falamos por aqui sobre o San Pedro Valley, ecossistema de Belo Horizonte (Minas Gerais), que soube fazer isso muito bem.

6 – Enfrente a mudança cultural frente a frente

Algumas vezes, o mindset de uma população pode ser empecilho para o desenvolvimento de atitudes empreendedoras. A dica de Daniel é enfrentar isso, transformando as normas sociais que são barreiras para a criação dos ecossistemas.

Em muitas culturas, as falhas são estigmatizadas. As pessoas ficam com medo de arriscar e encontrar a falência. No entanto, na mentalidade das startups, falhas são na verdade oportunidades de mudança e crescimento. A solução aqui é incentivar a tomada de riscos, mesmo que seja calculada, com capacitação e apoio. A mídia também pode ser uma grande aliada, da forma como citamos acima.

7 – Meça bem a aplicação de recursos

Para exemplificar este ponto, Daniel explica que produtores de uva regulam a água das plantações para obter frutos mais concentrados. Se houver muita água, a planta produz uvas mais “aguadas”. Faça o mesmo no desenvolvimento de ecossistema de empreendedorismo: aplique recursos de uma forma que incentive e não acomode.

Ambientes que não oferecem abundância de recursos despertam o interesse pela busca por soluções inovadoras e criativas. Uma ideia é investir em incubadoras e aceleradoras que não ofereçam aportes financeiros, mas outros elementos essenciais a fim de que as empresas cresçam. Saiba mais sobre isso aqui.

8 – Deixe que clusters se formem organicamente

Clusters (ou aglomerado, em tradução livre) são concentrações de companhias, fornecedores especializados, prestadores de serviços, instituições educacionais e organizações de apoio presentes em uma região.

É muito comum governos aplicarem estratégias de criação de clusters nos quais são os principais agentes de fomento. No entanto, Daniel acredita que tais aglomerados devam existir, em boa parte organicamente, sem depender do serviço público como protagonista.

O ideal é que governos reforcem e apoiem a existência dos clusters, não tentar criá-los do zero. Veja nosso post sobre a criação de hubs de empreendedorismo e confira algumas ideias para isso.

9 – Transforme o modelo burocrático e regulatório

Este ponto não está listado por último à toa. Daniel Isenberg explica que governos costumam se preocupar com isso prioritariamente, quando a atuação deveria ser mais holística, já que reformas não são o único jeito de fomentar empreendedorismo. Além disso, demoram muito tempo para acontecer e, enquanto isso, empreendedores se desenvolvem, por mais que haja impedimentos.

O autor sugere que haja preocupação com o que ele cita nos outros itens, bem como com ações que possam trazer benefícios para os ecossistemas, como a descriminalização da falência e ajuda para que empreendedores tenham condições de se recomporem rapidamente.

E aí, anotado? Agora você já conhece os principais pontos para a criação de ecossistemas de empreendedorismo, segundo Daniel Isenberg. Se até aqui você acredita que isso só pode ser feito em grandes cidades, sugerimos também a seguinte leitura:

SAIBA COMO OS ECOSSISTEMAS FOMENTAM O EMPREENDEDORISMO NO INTERIOR

Você vai encontrar vários exemplos de como governos impulsionam empreendedorismo em cidades menores, fora do raio das capitais. Boa leitura!

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