Empreender com a força da maternidade – entrevista com Renata Carvalho, do She’s the Boss

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Apesar de o número de empreendedoras no Brasil registrar crescimento nos últimos anos, sabemos que as mulheres ainda recorrem mais ao empreendedorismo por necessidade do que por oportunidade. Além disso, elas dedicam 18% menos de suas horas ao trabalho em relação aos homens e, consequentemente, recebem 22% menos que eles, de acordo com dados da pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor). Os motivos são muitos, mas um dos principais é a carga de trabalho invisível que as mulheres absorvem dentro de casa, com os cuidados domésticos e com os filhos.

Para falar mais sobre os desafios de conciliar o mundo dos negócios com a maternidade e também sobre as oportunidades que esse período da vida da mulher pode trazer para o empreendedorismo, conversamos com Renata Carvalho, cofundadora de iniciativas como o She’s The Boss e o Drive me Safe. Mulher e mãe empreendedora, Renata empreende para outras mulheres e mães.

Como foi a sua jornada empreendedora ao longo da vida, Renata?

Comecei a empreender muito jovem, depois que perdi meu pai, que era o provedor da família, aos 14 anos. Venho de uma família de classe média, cresci na região Leste de BH. Minha mãe não trabalhava fora e também teve de se virar pelo sustento e para pagar os meus estudos.

Entrei no mercado de trabalho aos 16 anos e não deu muito certo. Já tinha uma característica de liderança muito forte e criatividade de sobra, o que me permitia inventar maneiras de ganhar dinheiro por conta própria. Foi quando, em 1996, me apaixonei pela internet e abri meu segundo negócio sem nenhum investimento, apenas com um sócio-técnico que acompanhou minhas ideias e me encorajou, ou seja, meu irmão, mais velho do que eu e mais experiente.

Compramos um notebook financiado para que eu pudesse visitar clientes, e nosso escritório era no quarto dele. Persistimos até que a internet fizesse sentido para o mercado, estudamos muito e crescemos com uma empresa de prestação de serviços digitais.

Sabemos que as condições em que as mulheres empreendem ainda são muito diferentes das dos homens. Quais são os desafios que você observa no dia a dia de vivência como empreendedora?

Os desafios são diários para qualquer empreendedor, mas para as mulheres são ainda maiores. Culturalmente, nós, mulheres, tivemos um papel na sociedade em que o modelo patriarcal nos definiu, por várias gerações, como inferiores ou incapazes para determinadas tarefas. O machismo nos colocou em um lugar em que ou nos sabotamos o tempo todo ou tentamos provar o quanto somos boas. Esse sentimento faz com que trabalhemos mais buscando um perfeccionismo inatingível.

Um dos maiores desafios, na minha opinião, é o desenvolvimento da autoconfiança para tomadas de decisão em relação aos riscos que assumimos quando decidimos empreender. Também desafiamos a intimidação velada que ainda existe no nosso modelo social, como os salários mais baixos, por exemplo, ou a situação dos bancos, instituições muito tradicionais e patriarcais, que costumam negar crédito para empresas de liderança feminina com mais frequência do que para empresas composta de homens na maioria.

Uma pesquisa que acompanhei no ano passado, realizada pelo Boston Consulting Group, mostrou que startups fundadas por mulheres receberam menos da metade dos investimentos em comparação com empresas fundadas apenas por homens. Enquanto elas levavam em média US$ 935 mil em investimentos, eles recebiam ao redor de US$ 2,1 milhões.

Citei alguns, mas ainda existem muitos. Nossa dificuldade com finanças e precificação de produtos e serviços também é um desafio para o empreendedorismo feminino. Nossa característica de quem cuida, o que nos favorece e nos prejudica ao mesmo tempo. Temos de ter confiança para impor nossas regras.

A maternidade traz desafios a mais para as mulheres que querem empreender. Como tem sido a sua experiência como empreendedora e mãe ao longo das diferentes fases da maternidade?

A maternidade me atropelou, aos 31 anos de idade, na liderança da minha primeira empresa de TI, quando as coisas começavam a dar muito certo. É engraçado porque sempre conciliei de maneira muito natural esses dois papéis: me cobro mais como mãe do que como empresária e, ao mesmo tempo, meus filhos cresceram me vendo nessa loucura, me dividindo entre casa e empresas. Amamentei várias vezes meus três filhos na frente de um computador, nunca tirei licença-maternidade e, os poucos dias pós-parto que ficava em casa, era planejando como levaria os filhos para o escritório sem ser julgada.

Me adaptei ao home office e uso esse modelo desde o nascimento do meu primeiro filho, há dez anos. Me cobrava muito, mas aos poucos entendi que meus filhos seriam filhos mais felizes se a mãe deles também estivesse feliz. Eles sabem que sou feliz trabalhando e, assim, todos ficamos bem e aproveitamos momentos de qualidade e atenção exclusiva nos fins de semana.

Para me ajudar, uso um bom planner, e minha agenda é compartilhada com as atividades de todos lá em casa. Vou administrando tudo ao mesmo tempo e dividindo as tarefas sem pesar pra nenhum dos lados, equilibrando os papéis.

Atualmente sou sócia de três empresas e tenho três filhos, ou seja, é totalmente insano, mas não troco por nada!

A maternidade também pode trazer muitas oportunidade de empreendedorismo. Com as redes sociais, vemos um movimento de mulheres que se unem e criam redes de apoio em torno do tema nesses últimos anos. Quais nichos e tendências você observa para quem deseja empreender usando a maternidade como oportunidade de negócios?

Uma forte porta de entrada para o empreendedorismo pós-maternidade é o e-commerce, no qual a venda nos segmentos de produtos para bebês, moda, beleza e saúde lideram o ranking. Os grupos de mães surgem como apoio seguindo a tendência da união entre mulheres, muito pertinente para que nossas dores sejam compartilhadas, e a carga fique mais leve. Esses grupos são importantes também para trazer apoio às mães que decidiram iniciar um pequeno negócio caseiro ou a algumas que atendem por aplicativo.

Sou cofundadora de um aplicativo de mobilidade para crianças e adolescentes chamado Drive me Safe, em que apenas mulheres têm permissão para dirigir veículos. Temos 70 “mãetoristas” e todas elas optaram pelo trabalho por terem filhos pequenos e decidirem ficar mais tempo em casa e fazerem os próprios horários. É uma escolha que hoje representa 76% das mulheres que empreendem e são mães.

De onde veio a ideia de criar o She’s The Boss? Conte-nos um pouco mais sobre a empresa, que tem como público-alvo as mulheres empreendedoras. 

O She’s The Boss surgiu de uma dor minha. Após voltar da França, país onde morei por seis anos, fui a um evento em São Paulo em busca de oportunidades e de entender o mercado de startups que se iniciava naquela época. Percebi que, em um centro de convenções com mais de 5 mil pessoas, se viam pouquíssimas mulheres. Daí o nome veio à cabeça; registrei um domínio ainda sem saber o que faria com ele, mas estava decidida a entender por que tão poucas mulheres se encontram ali empreendendo.

No início, o She’s The Boss surgia como uma plataforma digital e rede de apoio para mulheres de liderança. Testamos eventos presenciais para ensinar e conectar mulheres em busca de oportunidades, geramos muitos negócios entre elas. Até hoje, esses eventos acontecem.

Estudando muito o universo feminino, percebi que a missão era muito maior, que ali tinha uma causa que virou propósito e que ia ao encontro da minha própria história, pois, resumidamente, tive de combater muito machismo a fim de conseguir ser o que eu escolhi.

Consegui um sócio-investidor, que contribuiu para o desenvolvimento da tecnologia, e entramos em um projeto de Aceleração da PUC Minas no ano passado. Daí mudamos o foco, e a plataforma reúne hoje uma rede de mentoras que conectamos a mulheres que precisam de um apoio na carreira e nos negócios.

Este ano criamos um modelo B2B que leva o She´s The Boss para dentro das empresas e, depois de checar uma série de requisitos, entregamos o selo “Empresa Amiga da Mulher”, modelo que encontrei para equilibrar o quadro funcional da empresa, igualar os salários e monitorar o acolhimento e o apoio dado às funcionárias que são mães.

Levamos conteúdos para empoderar e unir as equipes e gerar reflexão entre elas. O resultado de tudo isso é o aumento de performance e, consequentemente, o aumento de resultados financeiros para a empresa. Nosso papel social é a busca constante de projetos e grupos de mulheres em situação vulnerável, as  quais tentamos ajudar de várias maneiras com visibilidade e Educação Empreendedora.

Buscamos potencializar as mulheres em cargos de liderança e no empreendedorismo, mas, amanhã, podemos fazer muito mais. Afinal, o futuro é feminino e somente nossos talentos únicos enquanto mulheres podem mudar a sociedade em que vivemos e fazê-la prosperar.

Leia mais sobre os desafios e as oportunidades do empreendedorismo feminino.