Espaço para a diversidade e para que os funcionários possam ser quem eles realmente são. É daí que vem a motivação para a inovação na ThoughtWorks (TW), eleita a empresa mais ‘feliz’ do Brasil. Por trás do trabalho com pessoas, está Grazi Mendes Rangel, head of People da ThoughtWorks. Grazi foi uma das palestrantes da Feira do Empreendedor 2019, realizada pelo Sebrae, entre 16 e 19 de outubro, em Belo Horizonte.

Nesta entrevista, ela fala sobre as mudanças que o mundo do trabalho vem sofrendo e como isso impacta o perfil e a formação dos profissionais. Grazi também comenta o tema principal de sua palestra: por que razão a inovação verdadeira depende, em grande medida, de um ambiente com espaço para a diversidade.

Antes de falarmos sobre o profissional do futuro, é importante entender que futuro é esse do qual estamos falando. O que esperar do futuro do trabalho e o que é possível vislumbrar desde já?

O futuro não chega ao mesmo tempo, para todo mundo, da mesma forma. Falar sobre futuro é falar sobre futuros, no plural. É muito difícil fazer qualquer previsão, mas temos alguns sinais do ‘presente do trabalho’. Podemos dialogar sobre eles e, no máximo, torcer, mas sem acreditar que isso necessariamente vá ser concretizado na prática. O que já temos hoje é uma discussão do que é sucesso para as pessoas: como elas estão passando pelo processo de olhar para suas competências, para as competências que elas já têm ou que querem desenvolver.

Então, falar sobre futuro é parar de olhar para as caixinhas e os cargos e começar a olhar para competências e desenvolvê-las. Isso implica leitura de cenário, aprender a aprender, reaprender o que já aprendemos mas deixamos de lado, e até diz respeito a aspectos ligados à infância: curiosidade, experimentação, não ter medo de errar, errar rápido e consequentemente construir, cada vez mais, uma capacidade adaptativa para esses novos cenários. Assim, se uma profissão deixar de existir, você não se torna refém dela, mas passa a ser uma pessoa que desenha a própria trajetória valendo-se da construção dessas habilidades.

Isso não necessariamente vale para todo mundo. Existem pessoas que realmente estão em profissões ou em funções que não estarão mais disponíveis na mesma proporção que hoje em dia. Sobre isso, também precisamos refletir sobre como ampliamos a formação do indivíduo, como nos responsabilizamos por tecnologias que estamos criando e que, de fato, vão eliminar boa parte do trabalho das pessoas. Qual é nossa responsabilidade como organização, como empresa e como empresa de tecnologia? Não dá para dizer que uma empresa de tecnologia que aciona uma chave, e milhares de empregos deixam de existir, não tem nenhum tipo de responsabilidade sobre isso. Temos de conseguir criar espaços para que as pessoas continuem contando com seu trabalho, tendo essa relação de espaço para a produção. Essa é uma discussão que precisa permear todos os agentes da sociedade.

Agora, falando pela perspectiva das empresas. As empresas, em sua maioria, foram criadas e baseadas em um modelo que parte do princípio de que as pessoas não vão fazer aquilo que elas devem fazer e, por isso, é preciso controlá-las. Isso não está valendo mais. Os principais talentos e as pessoas mais capacitadas não querem mais trabalhar dentro de espaços em que elas precisam ficar pedindo ‘licença’ o tempo todo. Se querem se tornar espaços atrativos para os talentos que estão se formando, essas organizações precisam se reinventar com lideranças mais adaptativas e trabalharem ambiente de segurança psicológica, para que elas possam ter espaço de opinar, de ter voz e de ser respeitadas. Esse é um desafio muito grande para as empresas e, ao mesmo tempo, é um desafio também para nós, como profissionais.

Como os profissionais, individualmente, e os empreendedores podem se preparar para esse futuro?

Além do que já falamos, conhecer mais sobre tecnologia é importante, porque grande parte das profissões vai passar por uma digitalização. Quando você conhece mais sobre tecnologia, você deixa de ter medo dela e começa a pensar em como usá-la para ampliar as suas competências e suas habilidades. Outro exercício fundamental e importante é ter um olhar para as questões de diversidade porque a gente se conforta na homogeneidade, com as pessoas parecidas, mas a gente aprende é na diversidade.

Mas, para aprendermos na diversidade, precisamos passar por um processo de desconstrução dos nossos preconceitos e vieses inconscientes e precisamos estar abertos a nos desafiar – nossas convicções, crenças. Isso vai aumentar nossa capacidade de ampliação para que não sejamos idiotas. E digo ‘idiotas’ no sentido do grego, do idiótes, que são as pessoas que não sabem nada além de si mesmas e passam a julgar tudo a partir de sua pequenez. Desafiar-se dentro desse modelo aumenta as chances de não se tornar obsoleto no futuro. Porque a mudança é a regra, e o mundo muda desde sempre. Começamos as palestras dizendo “O mundo mudou”, como se estivesse mudando só agora. Não, o mundo vem mudando e vai continuar mudando. Então, quanto antes a gente se der conta e abraçar a ideia de que a regularidade é a mudança e do fato de que vamos ter de aprender a mudar, há mais chance de darmos conta das transformações que vão chegando e de sermos protagonistas nelas também, criando futuros mais amplos e justos.

Quais são os desafios e quais dicas você daria para os empreendedores que estão formando equipe agora, mas com o pensamento no futuro da empresa?

Existem pessoas que empreendem por sobrevivência e existe outro grupo que empreende para conseguir, de fato, criar oportunidades. Para todas essas, o que eu tenho de recomendação é acreditar genuinamente nas pessoas. Isso pode parecer óbvio, mas, ao longo do tempo, fomos criando uma série de mecanismos, processos e ferramentas que partem do pressuposto de que as pessoas precisam ser controladas para fazer aquilo que precisa ser feito. Isso atrofia a autonomia, limita as pessoas e empobrece as soluções que estão sendo criadas.

Partir de uma diretiva primária de que todo mundo está fazendo aquilo que pode, ajuda a gente a focar naquilo que realmente importa. Não é possível que a maior parte das pessoas levante querendo fazer coisa errada. A maior parte das pessoas se levanta para trabalhar, para aprender, a fim de fazer as coisas darem certo. Só que os processos dentro das organizações criam uma série de barreiras que matam qualquer inovação e criatividade.

Então, resumindo: o primeiro passo é parar de atrapalhar as pessoas. Se pararem de atrapalhar as pessoas, as lideranças e os empreendedores já vão estar ajudando. Crie um contexto, dê as condições necessárias, habilite esse espaço, saia da frente, porque as pessoas vão encontrar o caminho. Outra ideia é trabalhar com o simbólico e o material. O José Pacheco, educador da Escola da Ponte, fala que, toda vez que vai a uma escola, visita o banheiro. Se tiver um banheiro específico para professores e outro para alunos, ele sabe que ali tem um modelo hierárquico que já define quem manda e quem obedece, quem tem o poder e quem não tem, quem sabe e quem não sabe. Eu passei a fazer o mesmo nas empresas. Em muitas, vejo a cadeira do chefe, que é uma cadeira melhor, mais confortável. Esses elementos são estéticos, mas simbólicos, e materializam um ambiente em que as vozes não têm o mesmo espaço. Isso atrapalha muito e bloqueia a capacidade coletiva de solucionar problemas.

Conte-nos um pouco da experiência da ThoughtWorks nesse sentido e os resultados que vocês têm alcançado com a inovação por meio da valorização da diversidade

A ThoughtWorks é a empresa mais amada do Brasil, segundo o ranking da Love Mondays. Eu sou daquelas que lê tudo: entrevistas de desligamento, narrativas que são colocadas dentro de espaços como premiações. E o que mais se repete nas conversas é que as pessoas vão trabalhar na TW porque é uma empresa referência em agilidade, em excelência de tecnologia, nos produtos entregues e nas consultorias com clientes. As pessoas vão para lá por conta disso, mas elas permanecem porque lá elas se tornam pessoas melhores. Essa é uma frase que se repete de forma recorrente, e fico muito orgulhosa porque isso indica que a gente está fazendo as pessoas se desafiarem.

Mês passado, rodei pelos quatro escritórios fazendo sessões de conversas com as pessoas para falar sobre cultura. Algumas frases me marcaram muito. Pessoas que disseram coisas do tipo: “Todos os dias quando vou trabalhar, sinto o mesmo frio na barriga do primeiro dia, porque eu sei que vou para um espaço em que vou aprender algo novo e vou sair melhor do que saí ontem”. Isso resume muito nossa intencionalidade em abraçar as incertezas, a ambiguidade, a complexidade, em acreditar nas pessoas e deixar que elas tenham voz e possam construir as respostas e as soluções para os problemas que a gente enfrenta. Fica muito visível nas narrativas das pessoas que trabalham na TW que é possível ganhar dinheiro, entregar soluções com excelência técnica, mas, ao mesmo tempo, ser um espaço que faz as pessoas quererem levantar da cama para aprender e se relacionar e onde se sentem mais seguras para existir.

Você se sentiu inspirado pela experiência da ThoughtWorks? Leia também sobre o método one-on-one , estratégia de gestão de pessoas que ajuda a fortalecer as relações de trabalho e a cultivar um ambiente harmonioso.

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