Inovação em tempos de crise – Entrevista com Lina Volpini

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O que é a inovação senão a capacidade de encontrar oportunidades em situações inusitadas e colocá-las em prática? No mundo inteiro, estamos vivendo tempos desafiadores, enquanto todos nós enfrentamos a pandemia do novo coronavírus, a COVID-19. Ainda é cedo para falar dos impactos da pandemia na economia, mas já se sabe que muitas empresas serão afetadas. Por isso, mais do que nunca, é necessário inovar. Reinventar-se. 

Nas últimas semanas, é possível observar negócios aderindo, às pressas, às plataformas on-line e pensando em novos produtos e serviços que possam ser oferecidos durante o período de distanciamento social. Mas como fazer isso de forma ainda mais estruturada e sustentável? A tecnologia está imbuída em uma das respostas. 

Pensando nisso, traremos uma série de conteúdos pensados especialmente para o momento atual. São posts como este, que trazem ideias e ferramentas para começar a inovar desde já. 

Esperamos que goste. Boa leitura!

Inovação em tempos de crise – Entrevista com Lina Volpini

 

Empreender é perceber problemas, enxergar oportunidades e transformá-las em soluções. Em tempos de crise, isso se torna ainda mais necessário. Como pensar inovação em um momento de dúvidas e insegurança mundial como o que estamos vivendo agora? Para falar sobre isso, conversamos com a gerente de Inovação e Competitividade do Sebrae, Lina Volpini. Confira a entrevista a seguir.

1 – Estamos passando por um momento delicado em todo o mundo. Por isso, antes de mais nada, Lina, gostaria que você esclarecesse a diferença entre oportunismo e senso de oportunidade.

Acho que essa questão passa por bom senso e transparência. Este não é um momento para a empresa se omitir, é o momento de ela se comunicar com seu cliente e ser transparente. Acredito que, a partir do momento em que você está usando o bom senso e sendo transparente na sua comunicação, é muito pouco provável que você vá ser visto como oportunista. Oportunista, na verdade, é aquele que não tem uma comunicação anterior, não tem um relacionamento com os clientes e que, de alguma forma, está se aproveitando de um período de fragilidade para tentar vender ou tirar uma vantagem da situação.

O segundo ponto é: você deve começar a comunicação dizendo ao seu cliente qual a visão que você tem da crise, posicionando-se diante dela. Quando você expõe sua visão, você cria espaço para o diálogo, porque você abre para o público a forma como a empresa pensa e o que ela pode fazer visando gerar valor para o cliente. É um momento de troca e de, inclusive, aproveitar esse cliente e sua receptividade para desenvolver soluções conjuntas.

O bom senso também passa por não insistir com aqueles clientes que não querem nenhum tipo de comunicação. Estamos vivendo uma situação muito atípica. Há pessoas que estão vivendo no pânico, estão paralisadas – tanto empresas quanto clientes. E, de novo, se houver transparência, o cliente vai te dar o retorno de que não quer comunicação naquele momento. Mas tem de tentar. Acho que o que a empresa não pode deixar de fazer é não partir para a ação. Ela não pode se ausentar por medo de que aquilo seja percebido como oportunismo.

Por último, buscar o feedback do cliente é muito importante: ouvir como ele se sente em relação à sua comunicação.

2 – Por mais que as empresas pensem e criem processos para inovar ao longo do ano, chega um momento como este em que a inovação tem de ocorrer de qualquer maneira. Você poderia falar, por favor, desse caráter prático da inovação?

Acredito que a inovação ainda é vista como um tema muito distante da realidade do pequeno empreendedor: ele acha que é caro, que é demorado, que as tecnologias são para quem tem dinheiro. E o fato é que a inovação é qualquer pequena melhoria que você faz no negócio. Qualquer problema que você soluciona no seu negócio ou para o cliente é inovação.

Um exercício prático para os pequenos empreendedores é, em primeiro lugar, desmistificar essa noção de inovação, entendendo que ela é simples assim. Segundo passo: é entender com clareza os problemas que você tem e os pontos de melhoria que você pode desenvolver por meio da inovação. Isso tanto para dentro do negócio quanto para o seu cliente. Quando pensamos para dentro do negócio, estamos falando em como melhorar processos, como adotar uma ou outra tecnologia que vai reduzir custos ou aumentar a rentabilidade do negócio. Quando olhamos para o outro lado, é como podemos usar os melhores canais a fim de comunicar com o cliente, como podemos entender a dor do cliente e atendê-la com, por exemplo, um novo produto ou solução. 

O que eu mais gosto na inovação é exatamente o caráter prático que ela tem. Em vez de olhar para ela como algo grande, é preciso ter um olhar bem localizado para começar esse processo de inovação. E aí você vai fazendo inovações incrementais, que eu acho que são inovações de melhoria, e depois fazendo inovações de oportunidade junto ao cliente. Com isso, você já estará praticando a inovação.

A inovação só acontece, na prática, quando alguém faz. Ela é a decisão de um líder – seja um dono de uma grande empresa, seja um MEI – de fazer diferente. E, em segundo, ela tem de acontecer na prática. Na teoria, a inovação não vai gerar nenhum efeito no negócio.

3 – Como ter essa agilidade na ação em um momento de tanta incerteza?

Essa é uma pergunta que os empresários têm feito ao Sebrae quase que diariamente, e a nossa maior angústia é que gostaríamos de ter uma resposta, uma fórmula mágica para dar para essas pessoas. Mas o cenário é novo e complexo, a cada dia nos deparamos com uma nova circunstância e um novo elemento.

Se você fez a primeira etapa, ou seja, comunicou aos clientes a visão da sua empresa com clareza e agilidade, na minha visão você pode, primeiro, manter o equilíbrio que como líder terá de ter – e aí, cuidar da saúde mental é muito importante –, e depois, desenhar cenários. Nós conseguimos ter indicações de possíveis cenários. Desenhá-los é importante para que a empresa possa pensar no conjunto de ações que ela precisará fazer.

Temos visto que a principal necessidade é o crédito, porque as empresas estão de portas fechadas, não têm capital de giro, os empregados já estão em casa ou foram demitidos. Então o empreendedor está diante de uma situação que exige proteção do negócio, que passa por entender a situação e as finanças da empresa. Eu tenho capital de giro? Se sim, para quanto tempo? Na minha opinião, o empreendedor deve organizar uma matriz de priorização de suas ações baseada no maior impacto para o negócio e, no outro eixo, ao que ele consegue acessar em um primeiro momento, sejam informações ou soluções.

As prioridades vão depender muito da forma como o empresário gerencia seu negócio e das finanças, que vão dizer se ele tem mais ou menos fôlego. Isso começa pela questão da folha de pagamento, ou seja, saber o que fazer para manter os colaboradores empregados, depois por  entender se há ou não capital de giro para pagar fornecedores e o que será pago, o que será renegociado e o que será adiado. Esses são os primeiros passos, e, aí sim, ele vai poder inovar.

Não adianta decidir lançar um produto amanhã se, em paralelo, as contas estão chegando e você não consegue pagar.

Claro, estou falando aqui de medidas de curto prazo. Também não podemos esperar muito tempo para agir.

4 – Pensando naqueles negócios que dependem da presença física dos clientes e realmente não há como imaginar novos produtos ou serviços, como eles podem se manter presentes mesmo sem vender durante o período atual?

Ficamos impressionados com a criatividade dos empresários. Pior do que você não poder vender é ficar longe do cliente. O setor do turismo, por exemplo, está passando por grande dificuldade. O que eles podem fazer é vender adiantado. Vou ilustrar com um caso pessoal: a minha manicure depende da renda diária dela para viver e, assim, perguntou às clientes se elas se importariam de continuar pagando pelo serviço dela durante esse período. Quando o atendimento puder voltar a ser feito, ela vai dar descontos graduais para que a gente recupere aos poucos esse valor. Para nós, a diferença é pequena, mas para ela faz toda a diferença do mundo.

Conheço também uma empresa de cerimonial que propôs à noiva manter o contato com os padrinhos, com os convidados, fazendo publicações no site do casal até a nova data do casamento. Ou seja, eles fizeram a proposta de um novo produto, e a noiva topou. São soluções que vão surgindo.

Quem não tem a possibilidade de vender agora é quem mais precisa de se reinventar e manter o contato com o cliente. Por outro lado, as pessoas estão dentro de casa, sobrevivendo a uma reclusão forçada. É possível criar alternativas. Existe um bar que criou um espaço virtual para amigos tomarem café. Eles não estão vendendo, é uma ação de relacionamento. Mas, quando tudo isso terminar, há duas possibilidades: ou recomeçar o relacionamento com os clientes ou dar continuidade. Eu acredito que, se você manteve o relacionamento durante esse período, é possível retomar as vendas com mais facilidade. O cliente se mantém conectado com a marca.

Entender o consumo também é importante. Nós vamos ter uma grande revolução na educação a distância. Muitos alunos estão tendo aula pelo YouTube. Tem a mesma qualidade? Pode ser que sim, pode ser que não. O importante é que a empresa está criando outro modelo de relacionamento.

5 – Os clientes também estão mais abertos às inovações e às tentativas dos negócios, mesmo que não sejam as melhores soluções no momento. É uma boa hora para testar soluções também, não é?

É um momento em que há uma convergência em torno de um inimigo comum. As pessoas estão mais solidárias. Existe uma corrente de solidariedade muito positiva. Acredito que vamos ver um movimento importante de trabalho voluntário, por exemplo. Espero que essa seja uma das coisas que fiquem da crise.

As pessoas estão mais abertas a inovar e a entender que o mais importante é não ser ótimo, mas ser o muito bom que atende a uma necessidade.

6 – Além da transformação digital, que se tem mostrado um caminho óbvio, quais outros aspectos os negócios podem desenvolver desde já para não serem pegos de surpresa em próximos imprevistos e crises?

Acho que dois aspectos são mais importantes, um para dentro da empresa e outro para fora. Eu ficaria atenta, primeiro, para aproveitar o momento e fazer mudanças comportamentais, na cultura do negócio. A transformação digital é uma mudança cultural, não é só ter tecnologia, mas é adotar uma nova forma de fazer.

Especialistas estão dizendo que vamos avançar, em cinco meses, o que levaríamos cinco anos. E, na minha opinião, o maior ganho é comportamental. A inovação passa primeiro por uma mudança de mindset. A pessoa precisa ter uma disposição para a mudança, e as pessoas costumam ser muito resistentes ainda. A mudança exige mudanças de hábito. O que estamos vendo é as pessoas serem obrigadas a fazer esse movimento. Se antes éramos resistentes ao home office, hoje estamos quebrando essa barreira. Estamos mudando hábitos e formas de fazer, e isso é um ganho muito importante.

E, pensando para fora da empresa, é importante acompanhar as tendências de consumo. Elas vão mudar. A forma como o consumo acontece impacta todos os negócios em todos os segmentos. Estamos vendo uma mudança, que por enquanto é gradual, mas deve se tornar exponencial, nos hábitos de consumo da população. Falamos aqui de alguns exemplos: a forma como frequentamos a faculdade, como tomamos café, como fazemos reuniões.

Eu recomendo ouvir palestras, ouvir seminários de especialistas que antecipam as tendências, para saber como aplicá-las ao seu negócio. Assim, quando terminar a crise, você estará pronto para a nova economia que vai surgir a partir da pandemia do novo coronavírus.

É importante também lembrar que o empreendedor não está sozinho. O Sebrae está aqui, sempre esteve, e já tem trabalhado até nessa parte de tendências. Procure o Sebrae, uma vez que estamos disponibilizando uma gama imensa de cursos on-line e podemos ajudar você a dar os primeiros passos. Vamos sair mais fortes desta!

Recentemente, Lina também participou de um webinar com Tiago Belotte, fundador da CoolHow, e com Tom Moore, da Mandalah Consultoria, em que os três especialistas aprofundaram no tema e apontaram caminhos práticos para a inovação em tempos de crise. Confira o vídeo na íntegra e bons negócios!