A era da criatividade – entrevista com Patrícia Bernal

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Você certamente já ouviu falar que estamos vivendo a “era da Economia Criativa”. Mas o que isso significa realmente? A Economia Criativa não envolve apenas artistas, artesãos, comunicadores ou designers, como a maioria das pessoas tende a pensar. Trata-se de todo o ecossistema de agentes, empresas e profissionais dedicados a criar soluções para problemas de forma criativa.

Para falar um pouco mais sobre a Economia Criativa, como ela impacta setores mais tradicionais e os desafios e oportunidades que a pandemia apresenta ao setor, conversamos com Patrícia Bernal, fundadora do IH!CRIEI, dedicado a trazer conteúdos especializados sobre Economia Criativa, Criatividade na Prática e o Indivíduo Criativo em uma linguagem multimídia acessível, informal e criativa. Confira a entrevista a seguir.

Quais as mudanças no mercado de trabalho, no estilo de vida e de consumo das pessoas que, na sua opinião, levaram ao que chamamos de “era da Economia Criativa”?

Acredito que a Economia Criativa venha ganhando mais visibilidade nos últimos anos por várias razões. Na parte mais conceitual do nome, há diversos autores, especialistas, iniciativas públicas e privadas fazendo pesquisas sobre rentabilidade, funcionamento e impacto da Economia Criativa e da criatividade na sociedade e no mercado como um todo.

Já numa visão mais prática, como é uma economia bastante flexível, adaptativa, que gera renda em vários níveis, ela estimula aprendizados contínuos de temas de interesse individual, é autoral (ou pode ser), dá autonomia e liberdade para usar a criatividade, tem alto potencial para empreendedorismo, entre outros. Isso tudo se encaixa muito bem nesse jeito de viver (e consequentemente no futuro) que estamos experimentando, cheio de incertezas, mudanças, novas oportunidades e comportamentos, expansão de tecnologias. Também não podemos deixar de citar o estímulo ao Empreendedorismo, que é latente e se mostra como uma alternativa bastante interessante, uma vez que a atividade criativa tem em sua essência o ser empreendedor, já que, para que alguém note sua criação ou ideia, você deve saber vendê-la.

O mercado de trabalho no geral tem absorvido diversas características do modo de trabalhar criativo: ambientes diversos e com design que trazem espaços de convivência mais convidativos, espaços para colaboração com aplicação de diferentes formas de trabalhar (metodologia ágeis, criativas, dinâmicas etc.), maior flexibilidade, autonomia, possibilidade de trabalho remoto ou híbrido, estímulo a ideias inovadoras, e por aí vai.

Além disso, durante a pandemia muita gente que ficou desempregada, por exemplo, passou a ter tempo livre e começou a praticar alguma atividade criativa e logo viu que poderia ganhar renda com isso.

Nunca houve tanto produto criativo disponível no mercado. E, como uma das essências de um trabalho criativo é pensar na pessoa que vai usufruir daquela criação, logo os produtos e os serviços estão cada vez melhores – e isso é inovação. Todos ganham: quem cria e quem consome.

É possível pensar o futuro do trabalho sem criatividade? Como ela influencia setores que, aparentemente, não são criativos, como as áreas da Saúde, Engenharia, entre outras?

Olha….bem difícil né? Em um mundo faminto por inovação e melhorias de tudo, o tempo todo, seria como voltar à Idade Média se tirássemos a criatividade da vida e do trabalho do ser humano. Criatividade é o primeiro ingrediente para a inovação; afinal, toda inovação vem de um questionamento junto a uma ideia.

Para entender como a criatividade influencia áreas que não são da Economia Criativa, é preciso compreender a diferença entre pessoas criativas e profissionais criativos. Pessoa criativa é aquela que consegue expressar suas ideias diferenciadas quando tem oportunidade e espaço para isso. Já um profissional criativo é um especialista que aprende técnicas para transformar ideias em algo real, tangível, em que se almeja um determinado resultado como, por exemplo, uma música (por meio do conhecimento técnico de instrumentos musicais e seus conceitos), uma fotografia (mediante o conhecimento técnico de uma câmera e seus conceitos) e por aí vai. Ou seja, é um especialista que usa uma ou mais ferramentas técnicas e teóricas para chegar a um objetivo.

Portanto, nas áreas da Saúde, Engenharia e outras, a criatividade em ter ideias é extremamente importante, uma vez que essas ideias novas poderão melhorar os produtos (e aí entra o design, a funcionalidade, a usabilidade), espaços, tecnologia, gestão e até processos internos. Boas ideias servem para todas as áreas.

Vamos a um exemplo prático: a regra dos hospitais é a cor branca, uniformes brancos, e toda uma arquitetura meio padrão. Por isso muita gente odeia ir ao hospital. Você passa horas lá, muitas vezes com dor, e não há nada a fazer a não ser esperar. Por que é assim? Há muito o que fazer, desde a experiência do paciente às tecnologias dos equipamentos em que a criatividade pode contribuir. Agora imagine hospitais, nos quais as salas misturassem cores e tivessem itens de design para tornar os ambientes mais convidativos? Ou que pudessem ter salas de cinema ou jogos para adultos, e um estímulo a essa imersão enquanto se aguarda o médico? No mundo das crianças, já ocorrem experimentos mais criativos na parte do Design de Interiores. Por que não no mundo dos adultos?

Como é o ecossistema da Economia Criativa? Quem são os principais agentes que movimentam o setor?

O ecossistema da Economia Criativa é formado por todos os profissionais que trabalham nessa economia e mais todos os outros que se relacionam com esses profissionais. Por exemplo, uma pessoa ou uma empresa de roupas necessita de um vestido novo. Ela não sabe criar um vestido, desenhar, costurar, finalizar. Então, ela precisa contratar uma estilista/costureira que vai criar/fazer aquela peça. Neste caso, temos o comprador e o criador. Ambos estão dentro desse ecossistema, um não consegue tornar tangível aquela ideia sem o outro. Essa é a relação básica de uma economia, e ela é criativa já que há o fator de criação/criatividade envolvido. Em todo esse processo, há uma cadeia de colaboração, repertório e técnica individual.

Cada setor criativo tem uma função na sociedade, porém, nem todos compreendem ou dão valor a isso. Em uma nova classificação para a Economia Criativa, o IH!CRIEI está buscando fazer essa ponte entre a Economia Criativa e todo o ecossistema que ela engloba.  Nossa ideia é mostrar o objetivo prático de cada função e sua importância social.

E, conforme novas tecnologias vão surgindo no mercado, também despontam outras profissões dentro da Economia Criativa, como, por exemplo, piloto de drones.

Como é o dia a dia de um empreendedor criativo? Quais são os principais desafios de empreender na área da Comunicação, da Cultura e das Artes, por exemplo?

Acredito – e nossas pesquisas iniciais mostram – que o empreendedor criativo tem um grande dilema: como cuidar da gestão e da criação? Inicialmente, o criativo escolhe atuar nessa área pelo prazer e pela necessidade que sente de criar. Quando decide escolher uma área, ele se envolve, aprimora, e não quer mais parar de evoluir – sim, os criativos sempre aplicaram o conceito de lifelong learning (“aprendizagem ao longo da vida”, em tradução livre).

Aí vem a necessidade de usar essa criação para gerar renda própria e quem sabe viver só disso. Então se inicia a vida de empreendedor autônomo/freelancer, que é o passo anterior ao do Empreendedorismo em si. Depois, quando ele deseja expandir e se unir a outros criativos ou empreendedores criativos, aí começa a segunda etapa e mais difícil que é empreender sendo um criativo.

Essa é a parte desafiadora de gestão. Não necessariamente pela gestão do negócio em si, mas pelo acúmulo de funções, habilidades e exigências para ter uma empresa e coordenar equipes, além de todos os stakeholders. Nesse momento, a criação acaba ficando de lado – e o criativo vive com esse incômodo. Por isso, o empreendedor criativo está em constante dilema para equilibrar tantos anseios e vontades, seja de criar, seja de solucionar problemas no mundo. Uma das razões de eu ter criado o IH!CRIEI com foco amplo na vida e nos negócios dos criativos tem a ver com essa busca por solucionar questões criativas que surgiram de um âmbito pessoal/profissional.

Os desafios de empreender nas áreas criativas, a meu ver, são muitos. Alguns ligados à busca por novos modelos de negócios e à transformação digital dos talentos, a atividades e produtos gerados por criativos ganharem melhor distribuição, além de uma cultura empreendedora que deve ser incentivada com fontes de financiamento menos burocráticas e complexas, seja público, seja privado.

Como você tem percebido os impactos da pandemia na Economia Criativa? Quais oportunidades têm surgido com o novo cenário econômico e as novas demandas de consumo?

Não acredito que tenha impactado (do ponto de vista do estilo de vida dos criativos) de forma tão significativa como vimos no mundo corporativo tradicional – tanto que as empresas criativas, de tecnologia, foram as mais rápidas na adaptabilidade. Criativos são, em grande parte, autônomos e empreendedores; portanto, trabalham de forma remota ou sempre souberam das possibilidades para tal. Assim, psicologicamente já estavam preparados para um momento como esse em relação ao estilo de vida.

É claro que há muitas funções e atividades criativas que, até então, só tinham modelo de negócios voltado ao presencial. Logo, a pandemia impactou muito esses mercados – teatro, cinema, espetáculos, eventos, shows, filmes. Além disso, produções em geral que exigiam pessoas produzindo (por exemplo, uma fábrica de jogos ou um filme para rodar) tiverem de ser pausados por um período, e isso fez com que muita gente tivesse seus rendimentos congelados.

Eu imagino que o setor criativo possa se beneficiar dos aplicativos como renda extra e divulgação de seu trabalho e também utilizar plataformas digitais a fim de gerar fonte de renda, do YouTube até plataformas educativas. Outras possibilidades vão desde prestar mentoria – profissionais mais experientes ensinando jovens que desejam entrar no mercado – até consultoria para empresas que desejam utilizar as técnicas criativas, o pensamento criativo ou mesmo a cultura criativa, visando melhorar as aptidões de colaboradores dentro das empresas. Ou ainda o mercado de e-commerce que só cresce.

Creio também que, cada vez mais, o mercado vai ampliar as relações entre pessoas e profissionais, ou seja, tratar direto com quem cria e desenvolve – um trabalho mais artesanal, específico e personalizado. Os criativos podem e devem se beneficiar dessa relação H2H (Human to Human) para expandir seus trabalhos até, é claro, seus limites de atuação e seus objetivos de remuneração. Caso queiram crescer nesse modelo, ainda podem manter estruturas enxutas, trabalhando com equipes remotas e por demanda. Enfim, uma infinidade de possibilidades.

Gostou da entrevista com a Patrícia? Sabia que garantir a diversidade é uma das maneiras de estimular a criatividade na sua equipe? Leia mais sobre o assunto.