Inovação nos espaços de trabalho – Entrevista com o arquiteto e empreendedor Lucas Durães

Compartilhe este conteúdo:

Lucas Durães é arquiteto e urbanista pela UFMG, tendo complementado sua graduação em Milão (Politecnico di Milano, 2013-14) e em Roma (Università Tor Vergata, 2012). Seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado “Belo Horizonte sobre Trilhos”, alcançou nota máxima e foi indicado ao prêmio Opera Prima pela EAUFMG. Ocupar a cidade e pensar novos espaços são assuntos que, definitivamente, correm em suas veias. Lucas fundou o Guaja, importante plataforma de empreendedorismo e educação com foco nas áreas de arquitetura e design. Em 2018, fundou A Central, espaço de cultura e gastronomia localizado no hipercentro de BH, que busca articular iniciativas que resgatem e valorizem a produção cultural local.

E é sobre isso que conversamos com ele. Confira, a seguir, a entrevista em que Lucas fala sobre o papel da arquitetura na construção de uma cultura de inovação e compartilhamento.

O trabalho e a noção de empresa têm mudado muito. Por isso, há muita discussão sobre o fim do emprego como ele é hoje. Como os espaços de trabalho refletem essa mudança e como podem agregar a essa nova realidade?

Entendo que a origem da transformação não está na arquitetura, e sim nas ferramentas e nas formas de trabalho. Isso remete ao smartphone, a maior acessibilidade que temos hoje em dia de poder comprar notebooks, por exemplo. Vivemos uma massificação do acesso à internet e a equipamentos de alto poder computacional portáteis, que faz com que o trabalho possa ser desempenhado de qualquer lugar. Vários lugares antes não considerados locais de trabalho se tornaram ambientes possíveis para essa função. Com isso, temos um fenômeno mundial das cafeterias, que se tornam, cada vez mais, local de trabalho e de reunião, não nos esquecendo também dos coworkings, que surgiram a partir dessas mudanças de hábito.

Mas eu acredito que, daqui a 20 anos, vamos olhar para trás e perceber que os coworkings foram algo transitório. Não acho que eles deixarão de existir, mas creio que eles ainda se baseiam no layout de um escritório. São vistos como um escritório compartilhado, com a mesma arquitetura com a qual as pessoas estavam acostumadas, mas que operam de outra forma, com mais abertura e com a noção de comunidade.

De que maneira os pequenos empreendedores podem aproveitar as oportunidades que as mudanças no conceito de trabalho provocam?

Tal fenômeno já evoluiu bastante e vai continuar evoluindo no sentido que mencionei antes: de outros espaços passarem a ser entendidos pelas pessoas como locais de trabalho. Isso é, para os empresários, uma oportunidade de assimilação dentro de seus modelos de negócio. Por exemplo: eu já atendi três shopping centers que estão buscando entender como eles podem ser ou ter espaços de trabalho. É cada vez mais comum ver pessoas com seus notebooks em Praças de Alimentação de malls; os aeroportos também já têm espaços de coworking, e sobre as cafeterias, nem se fala. E isso vai evoluir para centros culturais, museus. A cultura do trabalho nômade vem também da cultura do trabalho freelancer.

Será que uma padaria poderia se tornar um espaço de trabalho? Hoje em dia, é relevante o empreendedor tentar entender se no negócio dele cabe uma análise nesse sentido. Posso ou devo ter um espaço onde as pessoas têm a possibilidade de abrir seus notebooks para trabalhar?

Outra coisa é que essa cultura vai criando a necessidade de ir além da questão estrutural. O grande x da questão é quando você consegue ultrapassar o aspecto da infraestrutura e pensar como o seu espaço pode oferecer um ganho para as pessoas em termos de comunidade, de inspiração, de conhecimento, de conexão. Aqui no Guaja, por exemplo, as pessoas não vêm só porque é um lugar bonitinho, tem café gostoso e internet rápida. Elas passam a frequentar porque sabem que aqui vão estar dentro de um ecossistema de pessoas com a mesma intenção que elas e que estão abertas a choques, descobertas e conexões.

Um dos motivos pelos quais as pessoas estão dispostas a colocar uma roupa, pagar um Uber e ir trabalhar em um lugar diferente é o fato de que elas querem estar nessa atmosfera e nessa rede de pessoas com os mesmos interesses.

Quais outras tendências mundiais você vê para a configuração dos espaços de trabalho?

Além de tudo isso que falamos, a parte da educação, da instrumentalização é muito importante. Estamos em um mundo cada vez mais acelerado, e isso faz com que as pessoas tenham necessidade cada vez maior de se atualizarem em relação a comportamentos, a ferramentas, enfim, a milhares de questões relativas ao conhecimento.

Até dez anos atrás, por exemplo, redes sociais eram algo irrelevante. Atualmente, é difícil citar um negócio que não precise articular com elas, de alguma forma. No Guaja, nossos cursos mais vendidos são exatamente os voltados a Gerenciamento de Redes Sociais, Marketing Digital, Utilização de LinkedIn ou, por exemplo, Oratória, que acompanha muito o fenômeno do YouTube, além dos cursos digitais e também da demanda para desenvolver habilidades de comunicação. Estou dando esses exemplos que podem parecer meio banais só para mostrar o quanto a possibilidade de oferecer instrumentalização é uma maneira de ir além.

Outro fator que acho interessante é pensar em mecanismos que podem combinar diferentes níveis de serviço. De novo, dou o exemplo do Guaja: aqui temos uma parte super importante do café-coworking. Também oferecemos, no segundo andar, infraestrutura para quem já precisa de um suporte de trabalho mais sólido.

E como as grandes empresas se inserem nesse contexto?

Até agora falamos sobre aspectos voltados para o freelancer e o pequeno empreendedor. Mas as grandes empresas são muito importantes nesse ecossistema. Muitas vezes, elas precisam de um espaço fixo – como aquelas que estão em múltiplas cidades – e vão encontrar nos coworkings uma solução prática e viável para a questão da infraestrutura. Há também as empresas que já possuem sede própria, porém investem em treinamentos ou eventos fora de ‘casa’. Isso é muito interessante, pois cria uma cena mais rica e coloca em convivência os profissionais autônomos com os profissionais dessas grandes organizações.

Tanto o Guaja quanto a Central também incentivam, além do trabalho mais fluido e colaborativo, uma nova relação com a cidade. Qual é a conexão dessa ocupação do espaço público com a inovação e com a economia criativa?

Se a gente for analisar a história das cidades, é possível observar que elas têm relação muito forte com o comércio, com a troca e o escambo, mas também com a cultura da criatividade. Vários autores defendem que as cidades são, por excelência, o campo de desenvolvimento criativo do homem. Isso porque as cidades colocam a diversidade em choque. Quando você tem pessoas diferentes, com atuação distinta, você tem a diferença se chocando o tempo todo, e é daí que nasce a inovação.

O que tentamos fazer é criar, dentro da cidade, espaços que potencializem o que já acontece na convivência em um centro urbano. Nas cidades gregas, temos o conceito da Ágora, que é uma praça, mas, ao mesmo tempo, o local onde os filósofos se encontravam para debater ideias. Aqui no Guaja, tentamos recriar o espírito da Ágora, ou seja, um lugar em que as pessoas vão para se inspirar e se conectar.

A inovação, apesar de ter processos e métodos, tem ligação muito forte com a espontaneidade. A ideia nasce a partir de uma postura de vida da pessoa, isto é, o fato de ela viver dentro de um contexto que incita a criatividade.

Viu só como o futuro do trabalho pode não só abrir novas oportunidades de negócio, como também impactar a sua relação com clientes e público interno? Quem fala mais sobre o assunto é a Grazi Mendes, head of people da ThoughtWorks. Confira a entrevista na qual ela comenta por que razão a inovação verdadeira depende, em grande medida, de um ambiente com espaço para a diversidade.