Investimentos para startups em tempos de pandemia – entrevista com João Kepler

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Em um momento de tantas incertezas como o que estamos vivendo com a pandemia do novo coronavírus, é natural que investidores se sintam mais receosos. Mas as startups têm resistido bem à conjuntura, e os investimentos continuam. Porém com pequenas mudanças. O que os investidores-anjo, por exemplo, estão buscando a partir de agora, com as mudanças recentes no mercado? É uma boa hora para procurar investimento?

Com o intuito de falar sobre o tema, conversamos com João Kepler, empreendedor, investidor, autor de diversos livros acerca do assunto e premiado como um dos maiores Incentivadores do Ecossistema Empreendedor Brasileiro; Espalhador de Ideias Digitais e Melhores Práticas em Negócios. Confira a entrevista a seguir.

Quais são os os principais desafios que as startups têm enfrentado durante a pandemia e, consequentemente, a desaceleração da economia?

O mercado mundial já passou por diversas crises, e as startups se mostraram resistentes e resilientes graças ao seu crescimento exponencial e aos melhores retornos pós-crises. Apesar de a crise global causada pelo novo coronavírus não ter precedentes e não sabermos ao certo o que vai acontecer, observamos, ao longo da História, que diversas grandes empresas de hoje foram criadas nos moldes das startups em momentos de pura adversidade.

Foi durante crises que surgiram ideias incríveis como as startups Airbnb, Uber, Zoom e tantas outras. Porque é justamente nessas situações que empreendedores incomodados e insatisfeitos enxergam as oportunidades e desenvolvem alternativas e soluções para os problemas iminentes.

Startups estão acostumadas a circunstâncias de extrema incerteza. Os empreendedores brasileiros são resilientes, desenvolvem Modelos de Negócios enxutos, digitais e escaláveis, trabalham em espaços colaborativos e em home office – em tese, fazem muito, com muito pouco. Por isso, o impacto das mudanças e o reflexo da crise costumam ser bem menores nessas empresas.

O momento ainda é de muita incerteza. É uma boa hora  para buscar investimento?

Não tenho dúvidas de que os impactos da Covid-19 e do alongamento do confinamento deixaram o mercado de capita de risco (Venture Capital) apreensivo e, obviamente, mais lento. O foco mudou rapidamente para o apoio ao portfólio e um cuidado redobrado com as startups investidas.

Na Bossa Nova Investimentos, por exemplo, a orientação para nossas startups se dá no sentido de redução geral e controlada de custos, apoiando com mentoria especializada e, eventualmente, soluções financeiras. A ordem é zerar o burnrate e voltar ao ponto de equilíbro, até passar a tempestade. A boa notícia é que não corremos riscos de perder investimentos (writeoff) nesse período.

Por outro lado, não paramos de investir e tampouco desaceleramos. Ao contrário, continuamos realizando novos investimentos em startups, desde o início da quarentena.

O que um Investidor-Anjo está buscando, em termos de resultados, como também de novos valores e estratégias?

Acreditamos em uma “ressaca positiva” no pós-crise e um 2021 produtivo e rentável. Assim como a Bossa Nova, muitas casas de investimentos em startups e Investidores-Anjo declararam publicamente que continuam investindo durante o isolamento. A maioria afirma que está em home office, embora operando e analisando oportunidades de investimento. Isso mostra que o mercado não parou. E isso é um sinalização importante para o mercado de investimentos e para o ecossistema brasileiro de startups.

Aliás, investidores de fundos (Family Offices e LPs) sabem que, com essas taxas de juros, volatilidade nas bolsas, dólar subindo e mercado incerto em todos os sentidos, terão de alocar mais em investimentos menos líquidos. Percebem a importância dos relacionamentos de longo prazo, dos aprendizados e principalmente que podem agregar valor às startups em estágio inicial (early stage) com capital intangível, assim como com capital financeiro.

Temos uma grande safra de empreendedores no Brasil, startups bilionárias, somos o quinto mercado global em tecnologia, Governo, Legislativo, academias, entidades e grandes empresas definitivamente entendem a importância das startups. Até por isso, creio que, não será esta crise, sem desprezar a força de destruição do coronavírus, que vai abalar o mercado de Venture Capital.

Quais são os setores ou os tipos de solução que estão se tornando mais relevantes e atraindo o olhar dos investidores, com tantas mudanças no comportamento do consumidor?

Ao pensar ainda que, no geral, são negócios de alta aderência a conexões, integrações, adaptações ao mercado e de baixo endividamento, baixo custo e alta performance, as startups estavam adaptadas a trabalhar em home office, por exemplo, e a lidar com equipes reduzidas, orçamento mensal enxuto, dentre outras características. E, é claro, que, com a infinidade de problemas que estamos tendo de enfrentar neste período de pandemia mundial, não param de surgir soluções voltadas ao combate à crise e ao Covid-19.

Por mais que existam infinitas especulações neste momento, o impacto que o novo coronavírus terá na economia global ainda é incerto, mas, sem dúvida, será grande. Uma previsão da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), realizada em março de 2020, é de que o Produto Interno Bruto (PIB) global atinja sua menor marca desde a última década.

Portanto, com toda certeza, ainda faremos o uso de muitas outras tecnologias a fim de superar tudo isso. Se antes as startups já ocupavam um lugar de destaque, agora, neste novo cenário mundial, serão ainda mais fundamentais. E fica evidente também que a relação entre ciência, tecnologia e sociedade é complexa, porém necessária para reconstruirmos o mundo à nossa maneira daqui por diante.

Existem diversos tipos de investimento possíveis para uma startup. Qual o time ideal para cada um e o que esperar de cada tipo de investimento/parceria?

O que acho importante frisar é que, se investir em startups no Brasil era um ótimo caminho que muitos estavam seguindo, atualmente, com as bolsas oscilando e caindo, a taxa Selic menor, o dólar subindo, e o mercado muito incerto em todos os sentidos, investir em negócios inovadores que resolvem problemas existentes e urgentes, se tornou definitivamente uma ótima oportunidade de investimento. Na minha opinião, postergar investimento agora só pelo argumento do medo, é sinônimo de perder as melhores oportunidades.

É hora de investir sem pânico em startups. Além da pouca volatilidade, é uma forma de ajudar o pequeno negócio, ser solidário e manter o mercado ativo. Sentar em cima do seu caixa e segurar seus investimentos por receio do futuro não vai te levar a múltiplos e retornos bastante interessantes no médio e longo prazo, nem vai te trazer retorno social no curto prazo, estimulando o pequeno e o mercado, neste momento.

Claro que isso não é uma garantia ou uma promessa, mas apenas a incerteza de como investir. Eu acredito que, como os investimentos nos estágios Anjo e Pré-Seed são feitos com valores e aportes menores, pulverizados e em grande parte por investidores pessoas físicas, a disposição ao risco, a independência de decisão e a mobilidade deles são bem significativas para que voltem a alocar os seus investimentos em startups.

Portanto, as startups devem continuar em levantando investimentos, só que de maneira também mais seletiva, tomando cuidado com propostas indecorosas de redução drástica do seu valor. É hora de escolher bem melhor seu investidor, sem pressão e de forma mais humanizada.

O dinheiro existe e precisa ser alocado com mais segurança neste momento, porém, cabe a cada startup mostrar essa segurança e a oportunidade de investir no seu negócio, e claro, as possibilidades realistas de ganhos e saídas futuras.


Gostou da perspectiva do João Kepler para as startups e os investidores neste momento? Para continuar lendo a respeito dos desafios e das oportunidades que surgem com a pandemia do novo coronavírus, confira este post sobre o novo comportamento do consumidor. Aproveite para assistir também à live com a participação de João Kepler, realizada pelo Sebrae-SC, em que ele aprofunda ainda mais no tema dos investimentos.